Não se tratasse de uma produção estrangeira (brasileira, mais precisamente) com base literária encontrada num famoso escritor português (Valter Hugo Mãe, mais exactamente) e um filme como O Filho de Mil Homens passaria sem notícia, rumo ao esquecimento nas catacumbas do streaming para que foi destinado.

O esquecimento, as catacumbas e o streaming, é o que merece este objecto que não é bem um filme, antes um filho de mil clichés, uma pasta informe propulsionada por todas as boas intenções do mundo — a defesa e ilustração das famílias alternativas, os pais, mães e filhos de substituição, um porto de abrigo para todos os marginais e marginalizados, escorraçados e ostracizados pelos costumes da sociedade e pela economia da sociedade (não é evidentemente um acaso que a caracterização do protagonista, Rodrigo Santoro, pudesse servir para um retrato de Jesus Cristo, o “filho do homem” original).

Daniel Rezende, que tem como principal trunfo no currículo uma nomeação para o Óscar pelo seu trabalho na montagem de A Cidade de Deus (o filme que celebrizou Fernando Meirelles), vê pouco e vê mal — vê televisão e vê publicidade, em enquadramentos arrumadinhos, vistosos às vezes (as contraluzes e o pôr-do-sol são sempre “vistosos”), mas sempre mortos, porque, como paradoxalmente acontece muitas vezes nestes filmes cheios de “imagem”, nada passa pela imagem, tudo tem de vir do diálogo, pomposo, explicativo, recheado de maneirismos e tiradas “literárias” debitadas com uma solenidade que mais parece enfado.


Rezende usa a música como um cajado para dar na cabeça do espectador e, com isso, fazê-lo perceber o que de outra forma permaneceria imperceptível: que este momento em que a música está tão intensa é “profundo”, assim se distinguindo de outros momentos em que a música não está tão intensa e são, portanto, menos “profundos”. Há personagens secundárias que parecem potencialmente interessantes, e de cada vez que o filme se afasta da sua dupla central (Santoro e o garoto que lhe aparece como “filho”) há uma ténue brisa de esperança, rapidamente aniquilada porque logo vem o regime triturador de Rezende transformar tudo e todos em estereótipos insossos.


Um desastre para ficar a vaguear no cosmos do streaming como aqueles satélites abandonados que ninguém se lembra que ainda andam às voltas na órbita da Terra. E é, mais ou menos, o que merece.


Realização: De Daniel Rezende

Actor(es):  Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Miguel Martines