Chelmik, Banjaqui, Dbouk, Verdi, Mide ou Tverdohlebov, nenhum destes apelidos remete imediatamente para Portugal, mas o futebol nacional já começa a habituar-se a pronunciá-los. O ano de 2025 tem sido inesquecível para estes seis jogadores e para os outros 15 que compõem a selecção de Sub17 que está a um triunfo de se sagrar campeã do mundo do escalão pela primeira vez. Se derrotar a Áustria, na quinta-feira (16h, Canal 11), em Al Rayyan, Portugal conseguirá a proeza de juntar os títulos europeu e mundial em menos de seis meses – será apenas a segunda selecção a alcançá-lo, depois da Alemanha, em 2023.
No passado 1 de Junho, muitos dos nomes da nova geração do futebol português saltaram para a ribalta. O triunfo sobre a França (3-0), em Tirana, valeu ao seleccionador Bino Maçães e ao seu grupo de 20 “indomáveis” o ceptro de campeões da Europa, o terceiro do palmarés nacional (ou o sétimo, se englobarmos nestas contas a era em que o torneio abarcava os Sub16), acumulando as distinções de defesa menos batida, com Romário Cunha em alta na baliza, e de melhor jogador da competição, entregue a Rafael Quintas.
Na presente caminhada no Mundial, que começou no dia 3 no Qatar, continuam ambos a ser protagonistas e peças imprescindíveis no xadrez de Portugal, que sofreu um único percalço na prova. A derrota diante do Japão (1-2), na última jornada da fase de grupos, não hipotecou o acesso aos 16 avos-de-final e a selecção nacional foi derrubando um obstáculo atrás do outro – Bélgica (2-1), México (5-0), Suíça (2-0) e Brasil (6-5, no desempate por penáltis) ficaram para trás, abrindo alas à melhor prestação de sempre num Campeonato do Mundo.
Mas quem são estes jogadores que, façam o que fizerem na final, já entraram na história das selecções de formação? Em traços gerais, pode dizer-se que é um grupo já com internacionalizações para dar e vender, somando 639 nos diferentes escalões (o recordista é o extremo Stevan Manuel, com 46), o que traduz experiência e maturidade competitiva a alto nível. Jogam maioritariamente nos campeonatos de juniores e Sub23, mas há quem, aos 17 anos, já tenha competido pela equipa B – no caso, o médio Bernardo Lima, do FC Porto.
Paciência e maturidade
O FC Porto, de resto, é o segundo clube mais representado na convocatória de Bino Maçães, com cinco jogadores: o central Martim Chelmik, os médios Bernardo Lima e Mateus Mide, e os extremos Duarte Cunha e Yoan Pereira. Acima, só o Benfica, que leva nove elementos ao Mundial (os laterais Daniel Banjaqui e José Neto, os centrais Mauro Furtado e Ricardo Neto, os médios Rafael Quintas e Miguel Figueiredo, e os avançados Stevan Manuel, Anísio Cabral e Tomás Soares), enquanto o Sp. Braga contribui com quatro (dois guarda-redes, Romário Cunha e David Rodrigues, o lateral Gabriel Dbouk e o avançado João Aragão), acima de Vitória SC (os médios Santiago Verdi e Zeega) e Sporting (o guarda-redes Alexandre Tverdohlebov).
O que é que este grupo de jogadores tem mostrado mais do que os restantes neste Mundial? Maturidade com bola, essencialmente. Bino Maçães foi feliz na expressão que usou para resumir a prestação da equipa depois da meia-final diante do Brasil. “Foi um jogo de adultos, são miúdos de 17 anos, mas foi um jogo de adultos, quer tacticamente, quer na intensidade que colocaram”. Ou seja, Portugal voltou a mostrar um critério e uma paciência com bola que contrariam a habitual pressa e verticalidade do futebol jovem, predicados a que tem juntado uma consistência defensiva compatível com os contextos mais exigentes.
Nesse sentido, há um padrão de jogo já identificável numa selecção com talento de raiz multicultural, mas nascido quase a 100% em território português (a excepção é Yoan Pereira, natural do Luxemburgo). Só para satisfazer parte da curiosidade em torno dos apelidos mais invulgares, importa dizer que Tverdohlebov tem também nacionalidade russa, que Banjaqui tem origens guineenses, que Mateus Mide é filho do ex-jogador de futsal brasileiro Adriano Mide, e que Verdi foi um nome que nasceu da admiração do bisavô de Santiago pelo compositor italiano.
A música que todos eles se preparam para tocar na quinta-feira, diante de uma Áustria que não marcou presença no Europeu de Junho, tem vindo a ser ensaiada nos últimos anos e depurada nos meses mais recentes. E, se tudo correr da melhor forma, alguns destes talentos estarão a prazo na selecção principal. Foi assim com João Moutinho, Miguel Veloso ou Vieirinha (campeões de Sub17 em 2003), bem como com Diogo Costa, Diogo Dalot ou Rafael Leão (campeões em 2016). Resta saber quantos lá chegarão e se o farão com um título mundial no palmarés.