O Salão Caramelo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, com seu pé-direito monumental e a luz filtrada pelas claraboias, volta a honrar suas origens. É nesse espaço, concebido para ser uma ágora de convivência e circulação, que a mostra “Vilanova Artigas: Estruturas Vivas” celebra os 110 anos do nascimento e 50 da morte do arquiteto, um dos fundadores da instituição e autor do edifício, finalizado entre 1966 e 1969.
“Claro que as efemérides são relevantes, mas o fundamental era realizar uma exposição que estivesse à altura da obra e do legado de Artigas para a faculdade e o meio cultural e arquitetônico paulistano e brasileiro”, defende o professor e curador Guilherme Wisnik, um dos sete nomes que assinam a coordenação da mostra.
Organizada pela FAU-USP em parceria com a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP e o Instituto Virgínia e Vilanova Artigas, “Estruturas Vivas” percorre obras emblemáticas para revelar o engenho estrutural que definiu o arquiteto e influenciou gerações de alunos e pares.
O princípio é claro: devolver ao visitante a experiência física do pensamento do paranaense, essencial na criação da chamada Escola Paulista de Arquitetura, que dá ênfase à técnica e valorização da estrutura, especialmente no uso do concreto armado.
Formado engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica da USP, Artigas entendia elementos como pilares não como meros suportes, mas como presenças dotadas de expressão própria —quase personagens. Suas construções revelam as tensões que as atravessam, deixam ver pesos, contrapesos e forças ascendentes em um movimento potente e de carga sublime.
“Artigas tinha uma dimensão muito forte da engenharia, então dominava muito bem a relação entre pilares, vigas e fundações. Só que conseguiu traduzir essas condições em expressões poéticas muito fortes, que têm a ver com a relação entre chão e terra, entre o telúrico e o transcendente”, define Wisnik.
Para deixar essas relações claras, a equipe decidiu trabalhar com escalas reais, relações de força e a própria dramaturgia do espaço. Esse dinamismo aparece de forma contundente no ambiente, onde ergueu-se uma reprodução, em escala um para um, de um dos pilares do ginásio do Anhembi Tênis Clube, projeto de Artigas de 1961. Ao circular em torno dela, é possível perceber a complexidade de escolhas e angulações.
A expografia, assinada pelo escritório Metro Arquitetos Associados, evidencia a força plástica que o arquiteto atribuía a esses elementos e ecoam soluções presentes no próprio prédio da faculdade, como os pilares que se fundem às vigas em gestos estruturais.
“O pilar no centro do espaço é o elemento emocional protagonista, sobretudo por trazer para dentro do prédio da FAU-USP a presença de outro prédio em escala real, não em uma representação”, diz Wisnik. “Assim, permite-se comparações, em termos de escala, tão importantes para a arquitetura. É uma obra dentro de outra obra.”
A escolha do espaço não é neutra, mas parte ativa da narrativa. “É importante lembrar que o Salão Caramelo foi pensado como um item simbólico, criado pelo arquiteto como um grande espaço de sociabilidade e integração da faculdade. E é tão monumental que, quando exposições são feitas ali, elas se apequenam. O desafio era dar conta da grandeza do trabalho do Artigas nesse espaço que lhe é próprio, conseguindo honrar essa dimensão”, explica.
Maquetes de edifícios ícones da carreira do arquiteto —como a Rodoviária de Jaú (1976) e o Ginásio de Utinga (1962)— foram produzidas por estudantes da FAU em processo que envolveu pesquisa no acervo, modelagem digital e construção manual. Com elas, é possível visualizar as nuances geométricas e o ritmo de cheios e vazios do arquiteto que pregava respeito igual à obra e à paisagem em que ela está inserida. Para quem não conhece arquitetura, a mostra funciona como um decodificador; para quem conhece, um reencontro.
A seleção de fotografias e desenhos dos arquivos de Artigas, que passaram a fazer parte oficial do acervo da instituição em 2024, aprofundam o percurso. Estudos do célebre “Caderno dos Riscos Originais” revelam fases preliminares do projeto da própria FAU-USP, mostrando rampas, blocos e versões da cobertura que precederam a solução final.
Em outros painéis, registros de obras parcialmente descaracterizadas ou atualmente abandonadas —especialmente a Garagem de Barcos do Santa Paula Iate Clube, de 1961, às margens da represa Guarapiranga— evidenciam a urgência da preservação do pensamento.
A exposição, contudo, não se limita à contemplação formal —é também um encerramento do que Wisnik define como “ferida histórica”. Não deixa de rememorar conturbações na trajetória do arquiteto, que foi cassado pela ditadura militar, afastado do corpo docente da USP em 1969 e, já veterano, forçado a disputar um concurso formal para retomar seu posto de professor titular, pouco antes de morrer em janeiro de 1985.
Ao final da programação da mostra, em 2 de dezembro, a FAU-USP concede a Artigas o título póstumo de professor emérito. “É uma reparação histórica muito importante. Estamos muito contentes de poder participar e atuar nesse momento tão significativo”.