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O popular fármaco contra a obesidade falhou nos muito aguardados ensaios de tratamento de doenças neurológicas como Alzheimer e Parkinson.

Os agonistas do recetor do péptido semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), usados em medicamentos como o semaglutide, revolucionaram o tratamento da obesidade, diabetes e de outras patologias frequentes.

Segundo um estudo publicado em abril na JAMA Neurology, de que o ZAP deu notícia na altura, estes medicamentos poderiam também tratar doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.

Mas estas esperanças acabam de sofrer um duro revés.

Segundo anunciou esta segunda-feira a  Novo Nordisk, os muito aguardados resultados  de dois grandes ensaios com a formulação oral de semaglutide em pessoas com Alzheimer não mostraram qualquer abrandamento da progressão da doença em comparação com o placebo.

O medicamento melhorou, contudo, alguns marcadores da doença não especificados, detalhao comunicado da farmacêutica dinamarquesa, que patrocinou os ensaios.

Embora os fármacos GLP-1 tivessem dado sinais de poder prevenir doenças neurodegenerativas, muitos investigadores consideravam improvável que estes medicamentos viessem a ajudar quando a doença já está instalada.

«Tínhamos a responsabilidade de explorar o potencial da semaglutide, apesar da baixa probabilidade de sucesso», explica Martin Holst Lange, diretor científico da Novo Nordisk, no comunicado.

Os ensaios, designados evoke e evoke+, foram os maiores e mais longos estudos alguma vez realizados com fármacos GLP-1 numa doença neurodegenerativa, envolvendo cerca de 3800 pessoas em fase inicial de Alzheimer, acompanhadas durante dois anos.

Ambos os ensaios aleatorizaram os participantes para receber uma toma diária de semaglutida até 14 miligramas ou placebo. O evoke+ incluiu um maior número de pessoas com evidência, em exames de imagem, de doença cerebrovascular, que frequentemente coexiste com a doença de Alzheimer.

Mas, depois de não se observar qualquer efeito do semaglutide na escala Clinical Dementia Rating / Sum of Boxes (CDR-SB), uma medida amplamente utilizada da função cognitiva e funcional em ensaios de Alzheimer, a empresa cancelou os ensaios adicionais que já estavam planeados.

A Novo Nordisk pretende apresentar resultados mais detalhados no início do próximo mês, na reunião Clinical Trials on Alzheimer’s Disease, em San Diego.

Segundo a Science, os ensaios foram inspirado, em parte, pelos sinais de que os fármacos GLP-1 poderiam prevenir a neurodegeneração.

Estes medicamentos demonstraram fortes efeitos protetores sobre neurónios em estudos com animais, e pessoas que os tomam para tratar a diabetes apresentaram uma incidência reduzida de doença de Parkinson ou de Alzheimer, incluindo quando comparadas com doentes sob outros tratamentos antidiabéticos.

travar um processo neurodegenerativo depois de ter começado é outra história. No início deste ano, um ensaio clínico com exenatida, outro fármaco da classe GLP-1, não mostrou qualquer abrandamento da progressão em doentes com Parkinson, apesar de resultados encorajadores num estudo humano de fase inicial.

Daniel Drucker, investigador em endocrinologia e especialista em GLP-1 na University of Toronto (UToronto), que não participou no ensaio, pensava que estes fármacos poderiam ter melhores hipóteses de ajudar doentes com Alzheimer.

Sabe-se que interferem em vários processos implicados na doença. «Estes medicamentos melhoram a resistência à insulina no cérebro e a sobrevivência neuronal. Reduzem as placas em alguns estudos com animais. Reduzem a inflamação cerebral. Comunicavam com recetores nos neurónios», diz

O histórico de segurança desta classe de fármacos terá também motivado o ensaio, dizem os investigadores: pelo menos, era pouco provável que causassem danos graves. «Acho excelente terem corrido este risco numa doença neurodegenerativa, e de forma tão definitiva», comenta Lorraine Kalia, investigadora de doença de Parkinson, também na UToronto.

Apesar dos resultados dececionantes, Drucker considera que dos dados mais pormenorizados, ainda por divulgar, poderão sair conclusões importantes, e está curioso por saber se análises adicionais vão mostrar que a semaglutida pode ter efeitos anti-inflamatórios no cérebro.

Para já, a esperança de que os medicamentos contra a obesidade pudessem travar as doenças degenerativas sofreu um rude golpe. Mas, diz o ditado português, a esperança é a última a morrer.


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