
Se estava a planear montar um computador novo ou fazer um upgrade à sua máquina, as notícias não são animadoras. O mercado de componentes está a atravessar uma fase turbulenta, com os preços da memória RAM a registar aumentos significativos, transformando um inconveniente pontual num problema estrutural para a indústria.
A raiz deste fenómeno encontra-se na procura insaciável por chips de alto desempenho, impulsionada pela corrida desenfreada à Inteligência Artificial. Gigantes tecnológicas como a OpenAI estão a fechar parcerias estratégicas para garantir hardware capaz de suportar o desenvolvimento de servidores de IA, o que está a desviar recursos essenciais do mercado de consumo.
Esta mudança de prioridades por parte das fabricantes está a criar um efeito dominó, afetando desde os entusiastas de PC gaming até à produção de eletrónica de consumo em larga escala.
O aviso de Tim Sweeney e o foco nos Data Centers
A situação é de tal forma crítica que figuras de proa da indústria já soaram o alarme. Segundo Tim Sweeney, CEO da Epic Games, o aumento nos preços da RAM será um problema real para os jogos de alto desempenho durante vários anos.
Nos Estados Unidos, o cenário é dramático, com kits de memória DDR5 de topo a duplicar de preço em poucos meses, mesmo durante épocas de promoções como a Black Friday. Grandes retalhistas estão a adotar modelos de cotação dinâmica, onde o valor dos componentes flutua quase em tempo real, dificultando a vida a quem planeia construir um PC.
A causa reside na Ásia, onde fabricantes como a Samsung, SK Hynix e Micron alteraram drasticamente o seu foco. As linhas de produção foram desviadas para satisfazer a procura dos centros de dados de IA, dispostos a pagar um prémio elevado por memória otimizada para machine learning. O mercado doméstico, consequentemente, ficou para segundo plano.
Consolas e hardware em risco
O impacto desta “inflação artificial” não se limita à RAM. O efeito de contágio já se faz sentir noutros componentes de armazenamento, como os SSDs, cartões microSD e discos rígidos de alta capacidade.
No setor do entretenimento, o equilíbrio económico está ameaçado. Analistas sugerem que a Microsoft poderá ver-se forçada a reajustar o preço das consolas Xbox. Do mesmo modo, a Valve tem mantido silêncio sobre os preços finais das suas futuras Steam Machines, precisamente devido à volatilidade do custo da memória.
Em contraste, a Sony parece estar numa posição mais segura a curto prazo, com rumores a indicar que a empresa armazenou grandes quantidades de chips para garantir a estabilidade da produção da PlayStation. No entanto, se a crise persistir até 2026, data apontada para uma possível estabilização, os aumentos poderão afetar desde smartphones a placas gráficas Radeon, com subidas de preço estimadas em 10%.
A realidade em Portugal: aumentos superiores a 100%
O mercado português não escapou a esta tendência global. Uma análise aos preços no retalho nacional revela aumentos acentuados que não podem ser justificados apenas pela flutuação cambial, uma vez que o dólar até registou uma queda face ao euro no mesmo período.
Exemplos concretos ilustram a gravidade da situação: kits populares de memória RAM, como os Kingston Fury Beast Expo, registaram aumentos de 50% entre janeiro e novembro. Outras marcas enfrentam cenários ainda mais drásticos, com modelos da Corsair a disparar 169%, e marcas como a G.Skill e XPG a registarem subidas de 53% e 22%, respetivamente.
Este cenário expõe como o avanço da IA está a remodelar a economia do hardware, com o custo da inovação a ser, para já, suportado pelo consumidor final.