Joaquim Miranda Sarmento está na short list para liderar o Eurogrupo. O ministro das Finanças português enfrenta a concorrência forte de dois homólogos, bem como a desvantagem de o cargo ter sido ocupado há pouco tempo por um português, mas nas últimas semanas o seu nome surgiu e ganhou força quer dentro do Partido Popular Europeu, quer no próprio Eurogrupo.
A oportunidade de eleger Joaquim Miranda Sarmento era algo com que a diplomacia portuguesa não contava. No entanto, no início de novembro, Paschal Donohoe renunciou ao cargo de presidente do Eurogrupo de forma surpreendente e anunciou a sua saída do Governo irlandês para rumar ao cargo de diretor-geral do Banco Mundial, em Washington. A saída de Donohoe, que tinha sido reeleito em julho deste ano, reabriu a corrida ao Eurogrupo, com Joaquim Miranda Sarmento a entrar diretamente para o grupo restrito de candidatos ao lugar.
O Partido Popular Europeu, que atualmente tem a liderança do Eurogrupo, é o partido mais forte no Conselho Europeu (com 12 chefes de Governo) e não quer, obviamente, abdicar do lugar. No Eurogrupo, também há oito membros (com direito de voto) do PPE, mas as contas estão mais equilibradas, uma vez que os socialistas têm sete ministros das Finanças (incluindo o alemão, pelo acordo de coligação em Berlim), pelo que não deixarão de tentar o lugar. Os liberais (Renovar Europa), embora mais enfraquecidos em ambos os colégios, podem querer desequilibrar a balança para o lado de um ministro do PPE que esteja num governo liderado por si.
Sendo o PPE o favorito a ficar com o lugar existem três candidatos: o português Joaquim Miranda Sarmento, o vice-primeiro-ministro belga, Vicent Van Peteghem, e o grego Kyriakos Pierrakakis. Começando pelos adversários, Van Peteghem, que o jornal Politico já definiu como o “favorito”, tem de facto vários pontos a seu favor. É vice-primeiro-ministro, tem antiguidade no Eurogrupo (onde entrou na primeira vez em outubro de 2020 e goza de grande credibilidade), pode ter o apoio dos liberais e é do PPE.
Porém, também tem desvantagens: o Governo belga não é estável, pelo que pode cair a qualquer momento (e com ele o cargo), além de que esse Executivo é liderado pelos liberais do Renovar Europa (o PPE pode preferir ter um presidente do Eurogrupo de um Governo que lidera).
Quanto ao grego Kyriakos Pierrakakis, este não tem a mesma força junto do status quo, mas tem a vantagem de ser ministro das Finanças de um Governo liderado pelo PPE e de Kyriálos Mitsotákis, primeiro-ministro daquele país, ser visto como uma espécie de potencial sucessor de Ursula Von der Leyen — há diplomacias que podem querer agradar ao grego para ganhar pontos para o futuro).
Falta então falar de Joaquim Miranda Sarmento, que tem a vantagem de ser um ministro do sul em que os Estados do norte confiam. O rigor das contas públicas e a credibilidade que Portugal tem alcançado em Bruxelas são fatores a favor do português. Depois, não estando a Polónia no Eurogrupo, tendo a Irlanda acabado de ter o cargo, sendo um socialista o representante alemão, Miranda Sarmento é, de facto e a par do belga e do grego, um dos governantes do PPE que lidera um país de maior dimensão no Eurogrupo (os que sobram são a Croácia, o Luxemburgo e a Letónia).
Miranda Sarmento tem, no entanto, a desvantagem de ser português: o facto de Mário Centeno ter ocupado o cargo há pouco tempo, de António Costa ser o presidente do Conselho Europeu e, ainda por cima, a comissária que tem assento no Eurogrupo (sem direito a voto), é portuguesa, Maria Luís Albuquerque.
Por último, há também a concorrência externa. Espanha deverá sempre apresentar ou tentar apresentar um candidato ao cargo, sendo provável que Pedro Sánchez indique o ministro Economia, Comércio e Empresas, Carlos Cuerpo. O PPE acredita, no entanto, que o cargo não lhe vai escapar das mãos, ainda para mais tendo em conta o que consideram ser o descrédito contínuo e acentuado de Pedro Sánchez no Eurogrupo.
Apesar das dificuldades, o que é certo é que o nome de Joaquim Miranda Sarmento está a ser levado a sério, o que já terá ativado a diplomacia portuguesa. Para o Governo português ter a liderança do Eurogrupo seria mais um reconhecimento do trabalho que o País tem feito para atingir o rigor das contas públicas.