Para Wilson Té, investigador guineense do Instituto Português de Relações Internacionais, este alegado golpe nada mais é do que a tentativa de um Presidente em se agarrar ao poder, usando uma manobra desesperada para escapar a uma derrota “humilhante” numas eleições que foram preparadas para ele ganhar.
O que pensa de tudo o que está a acontecer Bissau, com este alegado golpe de Estado?
Os acontecimentos em Bissau derivam de um conjunto de factores que já vinham aparecendo no cenário político guineense de há um tempo para cá e que culminam naquilo que estamos a viver. Porque temos um regime agarrado ao poder, um regime que o povo já não quer mais, mas que usa todos os meios possíveis para se poder manter no poder. Desde o início que o único discurso deste regime é tentativa de golpe de Estado, tentativa de golpe de Estado, tentativa de golpe de Estado, agora, ao estarem cientes que perderam as eleições de forma humilhante, decidem optar pela única forma de interromper todo o processo, encenando uma tentativa de golpe.
Para si, isto foi tudo orquestrado pelo Presidente Umaro Sissoco Embaló para se manter no poder face à derrota nas eleições presidenciais de domingo?
Sim, sim, foi ele. O primeiro órgão de notícias que divulgou as informações do alegado golpe foi a Jeune Afrique e as informações que temos das pessoas ligadas a esse meio é que foi o próprio Sissoco Embaló a telefonar para explicar tudo o que estava a acontecer. Foi uma encenação, porque este processo eleitoral veio demonstrar que o povo está farto deste regime. Eu votei em Portugal, em Albufeira, por volta das 16h30 e havia pessoal que tinha votado de manhã e ainda lá estava, à espera até ao fim do dia, para presenciar a contagem de votos. Como é possível o processo eleitoral acontecer num domingo e a Comissão Nacional de Eleições só anunciar os resultados provisórios na quinta-feira?! São manobras a que este regime já nos acostumou, tentando a todo o custo controlar as instituições para poderem fazer o que queriam. Só que o povo não se deixou cair nessa armadilha. O povo estava lá, vigilante, cada um querendo fazer com que o seu voto fosse respeitado. Então, a única solução de Sissoco Embaló foi fazer essa encenação triste e miserável, colocando o nome do país nas notícias internacionais de forma pejorativa.
E o que é que poderá acontecer agora?
Vamos, talvez, passar por uma transição. Não sei por quanto tempo, um ano ou dois. Depois o processo eleitoral vai ter de recomeçar de novo. Agora o que vai acontecer com os ditos detidos, como Embaló, que disse que foi detido, não se sabe, mas nas próximas horas, até amanhã, vamos ter uma clareza sobre a situação. Mas o caos está instalado no país. Agora, esse povo que vive com medo, esse povo que vem sofrendo – não há hospital, não há escola, falta muita coisa –, esse povo não merece continuar a viver nesse sofrimento. Por isso, decidiram votar como decidiram. E os lugares onde os apoiantes de Sissoco Embaló acreditavam que iam ganhar, perderam. Por exemplo, no Biombo, a região onde eu nasci, eles estavam convencidos que iam ganhar, porque o ministro das Finanças [Ilídio Vieira Té] levava dinheiro, fazia investimento, oferecia bens materiais ao povo, perderam por 10.400 votos, você acredita? É porque o povo não quer e quando o povo não quer, tem de, simplesmente, sair. Já fez cinco anos, sai e prepara-se melhor para voltar. Só que em África há esse problema, as pessoas agarram-se ao poder e não querem sair. Esse é um dos maiores problemas de África.