Foi em plena pandemia que Portugal – e o mundo – ficou a conhecer o almirante Henrique Gouveia e Melo, figura de camuflado que foi, em grande parte, responsável pelo elevado nível de sucesso da campanha de vacinação contra a Covid-19 em solo nacional. Com a popularidade crescente surgiram, de igual modo, suposições quanto a uma eventual candidatura presidencial que, ao fim de vários “não”, “nim” e pedidos para que lhe dessem uma corda para se enforcar, caso enveredasse por esse caminho, vieram a materializar-se.
Pela mão da jornalista Valentina Marcelino, “Gouveia e Melo – As Razões” está dividido em três momentos – “O Homem”, “O Militar” e “O Candidato” –, traçando uma radiografia das origens, do pensamento e das ideias do almirante, que se estreia na arena política portuguesa enquanto candidato na corrida a Belém. Explana, inclusive, o ponto de viragem que transformou o “nim” num resoluto “sim”, e que, entretanto, levou o almirante a acusar a agência Lusa de publicar uma notícia “falsa e enferma de uma falta de rigor inaceitável“, quanto aos motivos que o fizeram deixar a corda a um canto.
A diretora-adjunta do Diário de Notícias (DN) concedeu ao Notícias ao Minuto um vislumbre dos bastidores da grande entrevista ao oficial, que “gosta muito de conversar” e de “explicar os seus pontos de vista com bastante detalhe”, tendo dado conta de que o reservista “é, essencialmente, uma pessoa muito pragmática, [que] quer identificar soluções […] e acredita que há soluções para todos os problemas”. “Gouveia e Melo – As Razões” trata-se, assim, do contributo jornalístico de Valentina Marcelino “para facultar informação às pessoas, para decidirem e escolherem com conhecimento de causa”, vincando que várias “ficam um pouco surpreendidas com algumas revelações”.
Confesso que, do que tenho visto nos debates, [Gouveia e Melo] é diferente daquele almirante que tive à minha frente quando lhe fiz a entrevista
Como é que surgiu este desafio e porque é que decidiu abraçá-lo?
O desafio para fazer esta grande entrevista surgiu de um convite da Porto Editora, do editor Henrique Pinto de Mesquita. Perceberam que já tinha feito pelo menos duas entrevistas ao almirante, na TSF-DN e no próprio DN, antes de se anunciar como candidato. Também faço, normalmente, cobertura da área da Defesa. Era um momento de pré-campanha e não queria, de forma alguma, ficar associada a qualquer candidatura, ou poderem achar que este era um livro de apoio ao almirante ou o que quer que seja. Colocando os prós e os contras de um lado e do outro, achei que havia mais prós, principalmente porque tratava-se de um novo ator político; os outros já conhecíamos da cena política.
Também tinha muitas perguntas, que toda a gente fazia, sobre o que é que ele pensava disto e daquilo, e queria conhecer um pouco o percurso dele, – desde a experiência que teve em Moçambique, onde nasceu, e a sua passagem pelo Brasil, onde também estudou –, para perceber como é que isso tinha ajudado a formar aquilo que o almirante se tornou e todas as decisões que tomou ao longo da vida. Achei que era interessante e, do ponto de vista jornalístico, era importante. Seria o meu contributo para facultar informação às pessoas, que é o que nós fazemos, para decidirem e escolherem com conhecimento de causa.
E notou diferenças entre esse almirante que conheceu e o candidato presidencial?
Confesso que, do que tenho visto nos debates, [Gouveia e Melo] é diferente daquele almirante que tive à minha frente quando lhe fiz a entrevista. Mas também se compreende, porque a circunstância era diferente, a pressão era diferente. O almirante é uma pessoa que gosta muito de conversar, gosta de explicar os seus pontos de vista com bastante detalhe; já sabia disso mesmo antes de fazer esta entrevista, que foi relativamente tranquila por causa disso. Claro que tinha alguns temas pré-definidos e algumas perguntas, mas acabei por nem sequer seguir um guião, porque a conversa era sempre muito natural sobre os vários temas que achei que mais preocupavam as pessoas. E, agora, o almirante que estou a ver nestes debates é uma pessoa mais tensa e mais contida. Não sei o que vai suceder daqui para a frente, mas nem parece a mesma pessoa, de facto.
Não me lembro de ninguém que tivesse atingido aquela popularidade por um feito que não era político, era de salvar vidas. E, de facto, ele foi considerado como um herói. Lembro-me que, a qualquer lado que se ia com ele, as pessoas vinham ter com ele para pedir autógrafos
E está um bocadinho mais ao ataque.
Sim, ele está na arena política, não é? A arena política é para leões, como costumamos dizer. Tem de entrar nessa arena e, provavelmente, entende que deve estar ao ataque. Não sei se tem funcionado ou não – há várias opiniões sobre isso –, mas vê-se que ele é uma pessoa que precisa de tempo para expor as suas ideias.
Recuando aos tempos da pandemia, o que é que na sua opinião explica que Gouveia e Melo tenha sido encarado desde praticamente o início da task force da vacinação contra a Covid-19 como potencial candidato presidencial e o mesmo não tenha acontecido com Marta Temido, então ministra da Saúde, e Graça Freitas, na altura diretora-geral da Saúde? Terá estado em jogo um complexo pela procura de um herói num momento terrível da nossa sociedade, que foi suprimido na figura do almirante?
Pois, de facto, isso foi uma pergunta que o perseguiu a partir de uma certa altura da task force, principalmente quando se percebeu que Portugal estava a conseguir atingir resultados [na vacinação]. Até mesmo antes de ele ser nomeado, eu já estava a acompanhar todo o trabalho que as Forças Armadas estavam a fazer, e era ele que era o responsável por esse planeamento. Não nos podemos esquecer que era um momento de grande vulnerabilidade para toda a gente. As pessoas sentiram na figura dele, que andava com o camuflado, que era alguém que sabia o que estava a fazer – e que o que ele estava a fazer estava a dar certo. A partir desse momento, a popularidade dele disparou e levou a que as pessoas começassem a colocar essa questão, mas acho que foi devido às circunstâncias da altura. Não me lembro de ninguém que tivesse atingido aquela popularidade por um feito que não era político, era de salvar vidas. E, de facto, ele foi considerado como um herói. Lembro-me que, a qualquer lado que se ia com ele, as pessoas vinham ter com ele para pedir autógrafos.
Do que acompanhei, ele não pensava nisso [em ser candidato presidencial], de todo. Não pensava porque, como se pode constatar no livro, sempre quis ser militar. Desde os 17 anos que era esse o objetivo dele: acabar a carreira como oficial-general da Marinha. Mas, depois, a partir de uma certa altura, a insistência foi tanta, que ele começou a colocar essa ideia no pensamento; embora não tenha tomado uma decisão até setembro de 2024.
Pegando precisamente nesse ponto, bem sei que já comentou esta questão, mas não posso deixar de a abordar. Gouveia e Melo acusou a Agência Lusa de publicar uma notícia falsa a seu respeito, a propósito do momento em que decidiu candidatar-se. A Lusa, por seu lado, rejeitou e repudiou as acusações. Qual é a sua visão sobre isto? Há quem esteja certo e quem esteja errado ou é zona cinzenta?
Claro. Acho que a Lusa fez uma interpretação legítima das palavras dele, não citando palavras dele. A Lusa não diz que ele disse que tinha decidido candidatar-se por o Presidente da República não querer. A Lusa não escreve isso. Tendo em conta esta declaração, a Lusa viu a notícia em causa, e a notícia em causa falava nisso. A Lusa interpretou que tinha sido esse o motivo, mas ele explica muito claramente na resposta que me dá e não fala sequer no Presidente da República. O que diz é que, para ele, não era suportável nem admissível que estivessem a dizer que ele estava a fazer chantagem com o Governo para ficar na Marinha, nomeadamente para ter mais meios e mais investimento.
Ele entendeu que era uma questão de honra e soube que, naquele momento, não tinha condições para continuar, porque se ia achar que, se continuasse, era porque o Governo tinha cedido à chantagem, o que isso tornava a relação de confiança institucional muito complicada. Acredito que, tendo em conta todo o histórico e toda a pressão que tinha tido durante todos aqueles meses, acabasse por tomar essa decisão. Mas, como ele diz, – e tenho isso a abrir o livro –, podia ter ficado no “bem bom” e atingir o topo da carreira, porque poderia ser o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA) e, de facto, optou por algo completamente incerto. Escolheu a incerteza.
Capa do livro “Gouveia e Melo – As Razões”© Reprodução/Porto Editora
As sondagens valem o que valem, mas o que é certo é que Gouveia e Melo tem vindo a afundar na preferência dos eleitores. Como é que explica isto? Poderá estar relacionado com a questão anterior do mito do herói, que acabou por se desfazer à medida que o almirante foi partilhando as suas opiniões?
Há muita gente que está a questionar-se sobre isto. Neste momento, há mais candidatos do que havia no início do ano, ou do que havia quando ele começou a ser anunciado, ou quando começou a fazer parte das sondagens. Portanto, é normal que a votação se dilua um bocadinho por todos os candidatos.
Por outro lado, não nos podemos esquecer que as sondagens também são feitas com base em amostras cujos perfis das pessoas têm a ver com a intenção de voto em determinados partidos. Sendo que ele não está ligado a nenhum partido, penso que também não será estranho que não tenha mais votação. Independentemente disso, as pessoas também vão ficando informadas sobre as opções e as posições dos vários candidatos, e é legítimo que achem que ele não é o candidato certo e que outros sejam melhores do que ele.
Gouveia e Melo partilhou consigo que acredita que vencerá as eleições na primeira volta. Não estará aqui em causa a arrogância com a qual o confrontou ao longo da entrevista ou, pelo menos, excesso de confiança?
Essa parte da entrevista foi gravada em maio ou junho deste ano. Nessa altura, já estava um bocadinho a começar a descer, mas ele ainda acreditava que era possível. Se calhar, se lhe perguntar agora, também vai dizer o mesmo. Todos os candidatos acham que vão ganhar, alguns deles mesmo à primeira volta. Acho que não tem a ver com arrogância, mas com a confiança que ele tinha na altura para esses desfechos.
Ele é, essencialmente, uma pessoa muito pragmática; quer identificar soluções para os problemas e acredita que há soluções para todos os problemas, de uma forma geral. Quando diz que as pessoas estão fartas dos políticos, é mais no sentido de que há problemas por resolver há muitos anos e os políticos que têm estado no sistema não os têm conseguido resolver
Na entrevista, Gouveia e Melo referiu várias vezes estar a ser alvo de um “preconceito ainda velho, dos tempos do PREC”, e que o seu “principal adversário não está nas eleições”. Acha que, de facto, existe receio de que um ex-militar possa chegar a Belém?
Lembre-se que chegou a ser dito por um candidato, Luís Marques Mendes, que a candidatura de Gouveia e Melo representaria um perigo para a democracia, e que se falou muito do facto de ele ser um militar, apesar de já estar na reserva. Mas creio que isso já foi ultrapassado, já não está em causa. Aliás, ele despiu a farda, literalmente, assume-se como um candidato civil e tem toda a legitimidade. Qualquer cidadão, dentro dos critérios que são exigidos na Constituição, pode candidatar-se à Presidência da República, independentemente de ter sido ou não militar. Não está escrito em lado nenhum que alguém que serviu o país durante 45 anos não possa tentar servir o país de outra maneira, na Presidência da República.
Ao mesmo tempo, ao dizer que “as pessoas estão cansadas dos políticos tradicionais” e que não é “um político tradicional”, não podemos deduzir que Gouveia e Melo assume traços semelhantes a André Ventura, que diz ser antissistema e procura distanciar-se dos restantes candidatos, em prol da sua “missão” de salvar Portugal? Até porque, por sua própria admissão, desde os 17 anos que o almirante desejava servir o país e “contribuir para algo maior”, o que também dá indícios dessa ideia de missão.
Ele é, essencialmente, uma pessoa muito pragmática; quer identificar soluções para os problemas e acredita que há soluções para todos os problemas, de uma forma geral. Quando diz que as pessoas estão fartas dos políticos, é mais no sentido de que há problemas por resolver há muitos anos e os políticos que têm estado no sistema não os têm conseguido resolver. Por isso, apresenta-se como alguém que é pragmático, que está habituado a resolver problemas, – não só está habituado, como gosta de fazer isso –, e que pode dar esse contributo, mesmo como Presidente da República, que não tem poder executivo, como sabemos. Gouveia e Melo entende que é possível, da parte da Presidência da República, conseguir influenciar o poder executivo a resolver esses problemas, e vê que Portugal pode ser governado ou por um governo do centro-direita ou por um governo do centro; são duas opções que estão legitimamente consagradas nas eleições.
Ele não se aproxima de todo e faz muita questão em afastar-se de André Ventura, mas também da extrema-esquerda. Quando diz que é uma pessoa do centro, é literalmente uma pessoa do centro, porque vai buscar muitas posições mais à Direita e outras posições mais à Esquerda. E quando diz que é do centro, é nesse sentido pragmático; não é por uma questão ideológica. Acho que ele está bastante liberto de ideias ideológicas, porque o foco é resolver problemas e ajudar a resolver problemas.
Quanto a essa questão, Gouveia e Melo considerou que “não basta só criticar – é preciso encontrar soluções exequíveis”. A seu ver, as ideias do almirante são exequíveis, ou tratam-se apenas de lugares-comuns, talvez para agradar várias camadas da população?
Não, acho que não são [lugares-comuns]. Quando partilha uma ideia, ele realmente pensa e acredita mesmo que é capaz de ser executada, independentemente de, depois, conseguir ou não. Quando explorámos a questão da vacinação, havia muitos problemas na altura, em termos do funcionamento, da organização, etc. E ele – não sozinho, mas com a equipa dele toda – conseguiu mostrar que os portugueses, o sistema e a administração pública são capazes de fazer milagres, praticamente, não é? É uma pessoda que acredita nisso, e foi o que foi fazendo na Marinha, ou tentou fazer. Acreita que é possível adaptar essa metodologia para resolver não todos, mas alguns dos problemas mais importantes do país; ou, pelo menos, influenciar e ajudar a que sejam resolvidos.
A dada altura, mencionou que Gouveia e Melo lhe disse, e passo a citar: “Isto não é uma entrevista, Valentina, isto é um interrogatório, uma radiografia à minha cabeça e à minha alma.” Concorda com esta leitura? Houve perguntas que ficaram por fazer?
Acho que isso já foi quase no final. De facto, foram muitas perguntas; são 236 páginas de entrevista. Às tantas teve essa expressão, mas ficaram ainda muitas perguntas por fazer, porque todas as coisas têm um timing. Aquilo que achei importante na altura, perguntei. Entretanto, em setembro, ainda tentei atualizar alguns temas, – até porque 80% do livro já estava na revisora e já não conseguia mudar –, mas, se calhar, se fizesse a entrevista hoje, já ia ter outras perguntas para fazer. Isso faz parte, estamos sempre com a atualidade em cima de nós.
O que é que lhe perguntaria neste momento?
O que é que lhe perguntaria? Acho que, por acaso, não aprofundei muito este tema, e era muito importante ele dizer concretamente o que é que estava disposto a mudar na Constituição.
Ele estava perfeitamente consciente [do escrutínio], mas também me disse que uma das razões por que aceitou foi por estar consciente de que precisava de ter tempo para explicar as suas ideias, falar sobre ele, sobre o que o preocupa, em discurso direto, sem interpretações
E com o livro cá fora, que feedback é que tem tido? As pessoas sentem-se mais esclarecidas?
As pessoas que leem e que me vão consultando dizem que sim; algumas pessoas ficam um pouco surpreendidas com algumas revelações que são ali descritas, que desconheciam sobre ele. De uma forma geral, as pessoas sentem-se mais esclarecidas. É normal. Sem querer subestimar este livro, a Porto Editora também publicou uma biografia de Gouveia e Melo, da autoria de Vítor Matos, e também há outro livro sobre o almirante. Acho que, neste momento, o almirante é capaz de ser a pessoa que tem mais livros publicados sobre ele; não há falta de informação. Acho que é das pessoas mais escrutinadas entre todos os candidatos.
Não poderá isso jogar contra ele?
Sim. Ele próprio dizia-me isso, e eu disse-lhe que o que está ali escrito vai servir para eu e outros jornalistas o escrutinarem no futuro, quer seja eleito ou não. Estão ali posições sobre vários temas e, daqui a uns tempos, quando falar sobre eles, vou ver o que é que disse nesta altura. Se for alguma contradição, sabe-se que é notícia. Ele estava perfeitamente consciente disso, mas também me disse que uma das razões por que aceitou foi por estar consciente de que precisava de ter tempo para explicar as suas ideias, falar sobre ele, sobre o que o preocupa, em discurso direto, sem interpretações. Ele fecha-se muito, muitas vezes diz coisas que acabam descontextualizadas e, depois, parece que disse o contrário daquilo que realmente quis dizer. Isto foi uma forma de ele, em discurso direto, explicar como acha que os outros o veem e quais foram os objetivos dele com esta candidatura.
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