Maxar / HRL

Base militar russa no oblast de Pskov, 6 de maio de 2024

Uma equipa de investigadores da Universidade de Yale documentou, com a ajuda de imagens de satélite, a localização de 210 campos militares e de reeducação na Rússia, para onde foram levadas milhares de crianças ucranianas. Os russos cometeram um erro: tiravam selfies ao lado das crianças.

O investigador e ativista norte-americano Nathaniel Raymond, diretor Laboratório de Pesquisa Humanitária (HRL) da Universidade de Yale, relatou esta segunda-feira num seminário no Parlamento da Suécia, a forma como a sua equipa de investigadores identificou milhares de crianças ucranianas em campos de reeducação russos.

Em 2022, conta Raymond, o Departamento de Estado dos Estados Unidos incumbiu o HRL de estimar o número de crianças deslocadas pelas autoridades russas e a magnitude do fenómeno.

Inicialmente, a equipa de Raymond considerou que a tarefa seria quase impossível. “Como encontrar crianças escondidas e protegidas pelos serviços de segurança russos? Num caso de rapto em que só dispomos da internet e de imagens de satélite?”, conta o investigador, citado pela Agência AFP.

A solução surgiu graças a um erro cometido pelos russos: as autoridades locais tiraram selfies ao lado de crianças ucranianas. “Para ganhar a simpatia do Kremlin, tiravam fotografias ao lado das crianças, nos autocarros”, explicou Raymond.

“O mais curioso é que esqueceram-se de desativar a geolocalização nos seus telemóveis. Conseguimos extrair a latitude e a longitude do local e vimos, nas fotografias, que conseguíamos identificar os dispositivos, incluindo os seus relógios Apple Watch. Foi então que começámos a aprofundar a investigação”, acrescentou.

Após o mandado de captura emitido contra Vladimir Putin pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) em 2023, as autoridades russas deixaram de publicar este tipo de informação online.

Cruzando a informação recolhida com outros dados acessíveis, em particular as fotografias oficiais publicadas pelas autoridades russas, o HRL conseguiu identificar 210 campos militares e de reeducação em toda a Rússia onde se encontra uma parte das crianças ucranianas.

O destino destas crianças deve ser uma prioridade absoluta nas negociações em curso”, sublinhou Raymond.

A equipa de investigadores, que publicou em setembro o relatório do seu estudo, estima que haja um total de 36 000 crianças ucranianas nestes campos — onde estarão provavelmente a ser “reeducadas” com a ajuda do novo Dicionário Oficial da Rússia, no qual não constam as palavras fé, verdade, bem… e esperança.


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