Falou-se muito da “finlandização” da Ucrânia. Como é que a própria Finlândia olha para esta ideia, tendo em conta as lições do seu passado?

São casos totalmente diferentes e, na nossa opinião, este não pode ser o caminho para a Ucrânia. Eles precisam ter total liberdade de escolha. Por isso, acreditamos que este modelo finlandês não deve ser utilizado como moeda de troca nas negociações. Eles precisam de ter liberdade de escolha, nós não tivemos. No nosso caso, quando Portugal, Áustria e Suécia aderiram à EFTA, apenas conseguimos celebrar acordos de associação. Quando o nosso principal parceiro comercial, o Reino Unido, entrou na CEE, com muito esforço conseguimos chegar a um acordo de comércio livre com a EFTA. E o Conselho da Europa, fundado em 1949, teve a Finlândia como membro apenas em 1989. Por conseguinte, a Ucrânia precisa de ter liberdade de ação, de modo a que o acordo não inclua nada que permita à Rússia impor condições à sua futura integração.

A guerra na Ucrânia veio trazer à UE, como um todo, maior consciência da ameaça da Rússia. A Finlândia conhece bem essa ameaça. Este foi o momento de viragem em que UE percebeu que precisava para priorizar a sua defesa e tornar-se o mais independente nessa área?

Sim, tem toda a razão. Temos o desafio de usar esta crise para pôr toda a Europa a mexer. Percebi em Bruxelas que, na NATO, era muito claro para todos que a Rússia representa uma ameaça, ponto final. Mas quando passávamos para o outro lado do rio, para a UE, já não era tão claro. Por isso, precisamos de uma mudança radical na nossa mentalidade. Agora, pela primeira vez desde a fundação da UE, temos de enfrentar uma ameaça real aos nossos valores. E temos de estar preparados. Preparação é talvez a palavra de ordem nesta situação. Não podemos continuar como antes. A NATO está a mudar os seus planos. A Europa deveria fazer o mesmo. Mas temos outras dificuldades, como a dependência dos EUA e da China, o que limita bastante a nossa margem de manobra. Mas temos de lidar com estas questões, e rapidamente. Para sermos menos dependentes, de forma a termos mais e melhores opções dentro da UE. Compreendo que esta é uma questão muito difícil, porque a ameaça não é tão sentida aqui no Ocidente. Vocês têm outras ameaças, que nós, no Norte, também devemos reconhecer e enfrentar da mesma forma. Mas tudo isto nos leva à questão da preparação, que precisamos de abordar melhor. Na Finlândia, sentimos isso ao longo de todos estes anos, o que significou que investimos bastante nas nossas Forças Armadas. O ataque russo à Ucrânia não foi uma surpresa para os nossos militares. Sabíamos como as coisas funcionavam e é por isso que temos uma das maiores artilharias da Europa. Esse tipo de coisas antiquadas, tanques e tudo mais. Metade da Europa ria, pensando: “Será assim tão importante comprar este tipo de equipamento militar?” Mas agora a História mostrou que foi a escolha certa. Por isso, conseguimos fornecer muitas munições, por exemplo, à Ucrânia. Todos os outros países deveriam fazer o mesmo para estarem mais bem preparados. As metas da NATO estão a caminhar nesse sentido. A outra parte disto é a preparação civil. Na Finlândia, é também uma longa tradição. Militares, setor privado e cidadãos trabalham em conjunto e planeiam o que fazer caso algo aconteça. O planeamento é tão concreto que as fábricas sabem o que devem produzir em determinadas situações. Isto envolve o setor privado. Mais uma vez, é uma questão de mentalidade. Uma curiosidade é que os abrigos civis em Helsínquia são agora local de visita oficial mais popular. Quando as autoridades de diferentes países vêm à Finlândia, querem ver estes abrigos. Mas temos de estar preparados. O mundo mudou e agora há muitos atores que só querem o nosso mal. Estes são problemas europeus. A grande questão é que devemos tentar manter esta ordem mundial baseada em regras. Não podemos deixar que resultado desta guerra na Ucrânia seja que as potências podem fazer o que quiserem e mudar fronteiras sem que ninguém se preocupe. Não seria um bom exemplo porque passaria a mensagem para o mundo inteiro, para a China e para os EUA, de que podem fazer o mesmo.

Outra consequência da invasão russa da Ucrânia foi a adesão da Finlândia (e da Suécia) à NATO. Os finlandeses perceberam logo que chegara o momento de pôr fim ao não-alinhamento militar do país?

Mudou tudo numa noite. E imagino que seja muito raro uma mudança destas ser liderada pelo povo, e não por políticos. Naquela noite as máscaras caíram, de tal modo que já não podíamos contar com boas relações e contactos com a Rússia. E depois tínhamos a opção da NATO. Pensámos que, se a situação se agravasse, podíamos sempre solicitar a adesão. E já nos tínhamos integrado na NATO de forma tão profunda que, na verdade, as negociações para a adesão duraram apenas algumas horas. Depois do ataque à Ucrânia, tudo ficou muito claro na mente dos finlandeses, que perceberam que o não-alinhamento já não nos servia. O mesmo aconteceu com a neutralidade, já não precisamos dela. Era uma ferramenta política com a União Soviética: somos neutros e tentamos manter distância deles. Mas isso mudou da noite para o dia. E o apoio à NATO tem-se mantido acima dos 80% o tempo todo. No Parlamento temos 200 membros, apenas sete votaram contra a adesão.

Os EUA aumentaram a pressão e todos os membros da NATO concordaram em aumentar as despesas militares para 5% até 2035. A Finlândia já gasta mais de 2% e com a Rússia ali ao lado e um passado conturbado os finlandeses apoiam este objetivo?

Com certeza, sim. No ano passado gastámos 2,5% do PIB em Defesa. E comprometemo-nos com 3% até ao final de 2029. Esta meta de 5% [até 2035] também foi aceite por nós, sem grande discussão. Claro que o dinheiro precisa de vir de algum lado. Mas consideramos que a questão da segurança é muito importante. Há também um outro aspeto a considerar, que é o lado da UE nesta questão. A UE pode, de facto, fazer muito para apoiar estes objetivos da NATO. O financiamento da UE é uma questão importante neste contexto.

A relação com os EUA de Donald Trump, sobretudo na NATO, é outro desafio para a Europa. Mas o presidente finlandês Alexander Stubb é visto como próximo do presidente americano. Essa relação pessoal pode ajudar a que os dois lados trabalhem juntos com vista à paz e outros objetivos comuns?

Penso que, no que diz respeito à Ucrânia, isso ajuda. Mas, e o próprio presidente Stubb já o disse, somos muito pragmáticos e realistas nestas questões. Sabemos que a Finlândia é um país pequeno e podemos não ter lugar nestas mesas de negociação para sempre. Mas neste momento isso ajuda. E estou muito orgulhoso do nosso presidente nesse aspeto. É um jogador de golfe realmente bom.