Há uma geração de ouro no futebol português, aquela que ganhou dois títulos mundiais de juniores em 1989 e 1991, da qual faziam parte homens como Luís Figo, Rui Costa ou João Pinto. Se um título mundial em selecções jovens é sinal de uma geração de ouro, então Portugal tem mais uma a caminho. A selecção nacional conquistou, nesta quinta-feira, o seu primeiro título mundial de sub-17, ao vencer na final, em Al-Rayan, a Áustria por 1-0. Depois do título europeu em Junho passado, o título global para esta selecção e para o seu treinador, Bino Maçães, que se junta a Carlos Queiroz no grupo de técnicos portugueses campeões do mundo em futebol.
Depois das emoções dos penáltis frente ao Brasil nas meias-finais, Portugal iria ter pela frente uma selecção austríaca com a melhor defesa deste Mundial (apenas um golo sofrido) e o melhor marcador do torneio, Moser, médio ofensivo do RB Salzburgo. A selecção nacional, claro, tinha o melhor ataque de todo o Mundial, fruto de algumas goleadas que foi distribuindo pelo caminho, mas sabia que não iria ter as mesmas facilidades frente a esta selecção austríaca.
A pressão da Áustria seria uma constante, mas Portugal soube encontrar os caminhos para ultrapassar essa primeira linha, mostrando boa variação de soluções a sair para o ataque e, sobretudo, velocidade de pensamento e execução. Logo aos 3’, numa jogada rápida, Mateus Mide surgiu em posição adiantada junto à área, mas, em vez de avançar, deu um toque para trás, surgindo Duarte Cunha para uma primeira tentativa de finalização – o remate saiu ao lado.
Pouco depois, aos 13’, Portugal tentou o jogo mais directo possível, com o guarda-redes Romário Cunha a meter no meio-campo contrário para Duarte Cunha, que ganhou o lance a um defesa e ao guarda-redes, e meteu a bola na baliza – quando isto aconteceu, o jogo já estava interrompido porque o 7 português fez uma falta tão evidente, que nem foi preciso pedir revisão do lance.
Na resposta, a Áustria aproveitou uma falha defensiva para ficar perto do golo. Martim Chelmik perdeu um duelo com Deshihsku, a bola sobrou para Josepovic e a sorte portuguesa foi que o remate foi na direcção de Rafael Quintas.
Apesar do susto, Portugal não perdeu o controlo do jogo e, à passagem da meia-hora, chegou ao golo. Numa excelente combinação entre Mide e Duarte Cunha, o extremo do FC Porto ganhou a linha e fez o cruzamento rasteiro na direcção de Anísio Cabral. O avançado do Benfica estava sozinho na pequena área e só teve de empurrar para a baliza. Anísio não festejou de imediato, olhou primeiro para o assistente, mas a bandeira ficou em baixo e ele autorizou-se a si próprio explodir em celebração. O seleccionador austríaco pediu a revisão do lance, na esperança de um fora de jogo, mas o golo não foi apagado do marcador.
Portugal ainda tinha mais de meia-final pela frente para segurar os austríacos, mas a verdade é que já o jogo ia bem adiantado quando conseguiu criar perigo verdadeiro, com um remate ao poste de Daniel Frauscher aos 86’. Depois, foram mais quatro minutos até aos 90 e mais cinco até ao apito final. E houve muita festa portuguesa no relvado, a aquecer o ambiente num estádio que não estava propriamente a abarrotar.
No final do jogo, Bino Maçães deixou elogios aos jogadores. “Grande trabalho dos miúdos, sabíamos que a final ia ser muito difícil, já havia um desgaste muito grande… Dificilmente isto vai ser igualado e espero que tenham um futuro fantástico, porque merecem.”
O golo do título. O golo para a história! ????pic.twitter.com/XcSEINZSeB
— B24 (@B24PT) November 27, 2025
Mundial em crescendo
Foi mais um título português no futebol de formação, e o primeiro título mundial neste escalão, sucedendo à Alemanha, campeã em 2023 – Nigéria, com cinco títulos, e Brasil, com quatro, continuam a ser os dominadores globais neste escalão. Antes deste Mundial do Qatar, o melhor que Portugal tinha no currículo era um terceiro lugar no Mundial de 1989, com uma selecção que tinha Figo, Peixe, Abel Xavier e Bino Maçães, treinador desta conquista e da conquista do Europeu – e que tinha esse Mundial, em que Portugal perdeu nas “meias” com a Escócia, atravessado.
Foi um Mundial em crescendo, em que Portugal até começou a sofrer um golo frente à Nova Caledónia, antes de virar esse jogo para uma goleada (6-1), seguindo-se uma nova goleada (6-0) a Marrocos. Depois, a única derrota do torneio, ainda na fase de grupos (2-1 frente ao Japão). Na fase a eliminar, caíram aos pés de Portugal a Bélgica (2-1), o México (5-0), a Suíça (2-0) e o Brasil (5-4 nos penáltis depois de 0-0 no tempo regulamentar). A final com a Áustria não foi de goleada, mas não foi preciso.
Agora, veremos o que o futebol português faz com este grupo de 21 miúdos que fez história. Claro que ainda têm 16 e 17 anos e ninguém espera que sejam empurrados para a ribalta do futebol sénior de imediato, mas há aqui muito talento para não deixar cair.
PORTUGAL IS THE UNDER-17 WORLD CHAMPION! ??????
Greatest Generation of U-17s in Portugals history pic.twitter.com/AIwleOi46O
— ThePortugueseXI (@PortugalFPF) November 27, 2025
Mide, médio do FC Porto, foi eleito o melhor jogador do torneio – recebeu o prémio das mãos de um dos melhores de sempre, Xavi Hernandez. Anísio, o herói da final, marcou sete golos neste Mundial – e bem sabemos que Portugal anda sempre à procura de um ponta-de-lança, e vai precisar de um quando Ronaldo se retirar (quando, não sabemos). Romário Cunha, homem do Sp. Braga foi eleito o melhor guarda-redes, Mauro Furtado, central do Benfica, foi considerado o terceiro melhor jogador deste Mundial.
Estes 21 campeões mundiais merecem que o futebol português não se esqueça deles. Já é uma geração de ouro, aconteça o que acontecer.