Na base de tudo esteve o desafio de expor arquitetura num museu de arte contemporânea. Daí que se procure transformar representações clássicas da arquitetura — plantas, cortes e maquetas — em elementos com alguma autonomia, explica Manuel Aires Mateus. “As representações são abstratas e com valor em si, mas todas traduzem uma real possibilidade de construção”, observa. Por um lado, exibe-se arquitetura através dos seus elementos tradicionais; por outro, atribui-se-lhes um valor autoral. “A arquitetura responde a qualquer condição, mas importante é o que consegue fazer a partir daí.”

A pretexto do nome, Beleza Apesar de Tudo, diz ainda Manuel Aires Mateus: “O que me interessa, na arquitetura, não é responder a condições a que ela tem de responder, quer práticas, quer do seu tempo; é o que consegue fazer com isso. Se estamos a construir um parque de estacionamento, o que me interessa é como transformo esse parque de estacionamento num espaço extraordinário, que, eventualmente, pode ter outras funções. Mas, mesmo quando é utilizado como parque de estacionamento, de alguma maneira, sou inspirado pela presença nele”.

“O trabalho da arquitetura é utilizar as necessidades como matéria. De uma forma simplista, diria que, como os escultores utilizam a pedra, os arquitetos utilizam os problemas”, continua o vencedor do Prémio Pessoa 2017. “As motivações são sempre necessárias, a arquitetura só trabalha a partir de condições práticas, mas o motor da arquitetura são os problemas.”

“O interessante desta exposição é que ela estabelece uma relação entre arquitetura e arte”, defende, por seu lado, o curador, Nuno Crespo. “Fazer uma exposição de arquitetura num museu de arte obriga a um tipo de pensamento expositivo diferente do de uma exposição de arquitetura num museu de arquitetura.” O intuito é proporcionar ao visitante uma experiência estética e artística, seja qual for a sua motivação para rumar a Serralves.