Filme brasileiro indicado ao Oscar, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, coleciona críticas na mídia internacional e é descrito pelo Wall Street Journal (WSJ) como “arrebatador”. O longa estreia nesta semana nos Estados Unidos.

Em reportagem publicada nesta quinta-feira (27), o WSJ destaca que o diretor pernambucano adota uma abordagem criativa, encontrando humor em meio ao terror ao retratar a resistência durante a ditadura militar brasileira em 1977, algo considerado “incomum” em filmes sobre sobrevivência à tirania.

O protagonista Marcelo, interpretado por Wagner Moura, revela um ar de “desespero” marcado pela perda da esposa e relação com o filho pequeno, na percepção do WSJ, e um ponto de interesse é que a trajetória dele no Recife vai sendo revelada aos poucos.

A crítica ainda observa que, por algumas vezes, o diretor evita os corredores do poder político e concentra a narrativa no cotidiano das pessoas.

Por fim, o jornal apresenta o filme como uma produção que combina humor, violência e melancolia, situada em um período de repressão, e alinhada ao interesse recorrente do diretor pelos espaços físicos e afetivos do Recife.

“Visceral”, segundo o New York Times

Já na opinião do The New York Times (NYT), o filme também combina comédia e catástrofe no que chama de uma “obra densamente construída e marcada pelo realismo sensorial”.

Em reportagem publicada nesta quarta-feira (26), o jornal ainda destaca que Mendonça Filho adota uma abordagem “livre e inventiva”, encontrando elementos cômicos em situações de violência.

O veículo reforça que o professor retorna ao Recife não apenas como cenário, mas como componente central da narrativa, conectando o filme a obras anteriores como “Aquarius” e “Retratos Fantasmas”. O NYT observa que a cidade aparece em meio a “sombras ameaçadoras”, mas também como espaço de afeto, sociabilidade e alianças entre personagens que vivem sob perseguição política.

Para o veículo, o contexto da ditadura é constantemente lembrado no filme, seja pela ambientação, como o posto de identificação do Estado decorado com retratos do então presidente Ernesto Geisel, seja por gestos cotidianos dos personagens, que experimentam o medo intercalado com breves momentos de felicidade.

O NYT destaca o uso de choques cômicos “absurdos”, as transições entre diferentes períodos e a construção do mundo do filme com referências musicais, visuais e cinéfilas.

O jornal também menciona personagens secundários marcantes, como Hans, interpretado por Udo Kier, cuja aparição breve é descrita como “visceral” e representativa da estratégia narrativa do diretor. Mendonça Filho é retratado como um cineasta que rejeita convenções e combina elementos “altos e baixos”, o “refinado e o cru”; o “humor e a brutalidade”.

Segundo o NYT, o filme não trata o protagonista como um herói clássico da resistência, mas como um “homem inocente e comum” envolvido involuntariamente em um contexto de opressão.