A proposta partiu do seu presidente, Pietrangelo Buttafuoco, e terá sido acolhida com entusiasmo por todo o conselho de administração – Wang Shu e Lu Wenyu serão os curadores da próxima edição da Bienal de Arquitectura de Veneza, a que se realizará entre 8 de Maio e 21 de Novembro de 2027.

Aceitaram o desafio, escreve a Dezeen, revista online da especialidade, com uma missão ambiciosa – combater “a morte da arquitectura”.

Wang Shu, que em 2012 se tornou o segundo arquitecto chinês a ganhar o prestigiado prémio Pritzker, depois de I.M. Pei em 1983 e antes de Liu Jiakun já este ano, trabalha lado a lado com Lu Wenyu, que como ele alia a prática da arquitectura à teoria e à docência, desde 1997, ano em que fundaram o seu próprio atelier, o Amateur Architecture Studio.

O casal criou também o departamento de Arquitectura da Academia de Arte da China, em 2003, e, quatro anos mais tarde, a Escola de Arquitectura, de que Wang Shu foi o primeiro presidente e Lu Wenyu, que com ele recebeu o Prémio Schelling (Alemanha) em 2010, a primeira directora do Centro para a Construção Sustentável, unidade de investigação ligada a esta instituição universitária, lembra o comunicado da organização da Bienal de Veneza.

“É com grande prazer que anunciamos a nomeação de Wang Shu e Lu Wenyu como directores artísticos do sector de arquitectura [da Bienal de Veneza]”, disse Pietrangelo Buttafuoco, citado no mesmo documento. “A sua visão, profundamente enraizada na memória dos lugares e no conhecimento dos processos de construção, representa hoje uma voz essencial no debate internacional sobre arquitectura e sobre o significado de habitar os espaços do mundo”, continua o presidente da bienal, elogiando em seguida a capacidade de ambos para, combinando “responsabilidade cultural e génio experimental”, contribuir com propostas de “extraordinária qualidade” para o momento presente da arquitectura, que exige “sabedoria” e “imaginação”.

Wang Shu e Lu Wenyu, por seu lado, afirmaram-se “muito honrados” com o convite para assumir a curadoria da que será a 20.ª edição da Mostra de Arquitectura da Bienal de Veneza e reafirmaram o seu compromisso para com uma prática baseada em conceitos simples e verdadeiros.

Assumindo que o sector vive hoje uma crise, a dupla atribuiu-a, no mesmo comunicado, a uma conceptualização e a uma preocupação com a vertente comercial excessivas que levam a que a arquitectura se divorcie da realidade, do lugar. Um fenómeno que, garantem, se arrisca a conduzir “à morte da própria arquitectura”, transformando-a “numa espécie de “expressão ilusória” do futuro.

“Insistir num conceito e método simples e verdadeiros de arquitectura tem um valor especial”, sublinhou a dupla de arquitectos. “Vamos esforçar-nos por apresentar este valor e explorá-lo com a maior sinceridade, para uma realidade e um futuro melhores.”

Entre os trabalhos mais conhecidos do Amateur Architecture Studio estão, lembra a revista Dezeen, o Museu de História de Ningbo, construído sobre as ruínas de aldeias demolidas, e o Complexo Cultural Fuyang, cujo revestimento resulta da reutilização de tijolo e telha.

O trabalho de Wang Shu e Lu Wenyu – o nome que deram ao seu atelier evidencia-o – é uma reacção à arquitectura profissional, de grande impacto, que dizem levar à demolição dos antigos bairros e de outros espaços que diferenciam os meios urbanos chineses.

A dupla de arquitectos foi responsável pelo pavilhão de Macau na edição da Bienal deste ano, no Arsenale. A exposição que idealizaram, Mundos Paralelos, combinava a fotografia de Iwan Baan com projectos de arquitectura locais, mostrando as várias faces do território.

Em 2006 a dupla tinha já assumido a concepção do Pavilhão da China na Bienal, tendo recebido uma menção honrosa pela proposta que então apresentou, Decay of a Dome, repetindo a participação dez anos mais tarde.

Foi precisamente em 2016 que o casal esteve em Portugal, a convite da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, para falar da prática no seu país, denunciando o mesmo crescimento exacerbado e descontrolado que dizem continuar a pôr em causa a sustentabilidade e a própria arquitectura.

Na mesma altura, em conversa com o Ípsilon, Wang Shu defendeu que o Prémio Pritzker que lhe fora atribuído quatro anos antes pertencia também, e naturalmente, a Lu Wenyu.

O presidente da Bienal de Arquitectura de Veneza espera agora que a curadoria da dupla conduza em 2027 a “novas formas de compreensão da relação de todos com o espaço, a memória e a comunidade”.