O ano de 2025 foi o ano do Liverpool. O ano de 2025 foi o ano em que o Liverpool voltou a bater no fundo. Parece um paradoxo e algo ao nível das mitologias e de histórias ficcionais mas será, certamente, a melhor forma de descrever o ano que está prestes a terminar, embora o insucesso pareça estar destinado a continuar para os lados de Anfield Road. Se recuarmos seis meses numa máquina temporal, voltamos a um mês de maio que viu os reds reconquistarem uma Premier League que lhes fugia há cinco anos, quebrando a hegemonia do Manchester City e mostrando um domínio ao nível dos melhores tempos da equipa de Pep Guardiola. Contudo, tudo começou a mudar a partir do verão, a começar pelo acontecimento que agitou o mundo do futebol no mês de julho e que ainda hoje parece ter impacro: a morte de Diogo Jota.

Humilde, resiliente, fiel, adorável: como Jota deu o exemplo a todos os Diogos e chegou ao topo por caminhos alternativos

A época propriamente dita começou da pior forma, fora e dentro de campo, com a equipa de Arne Slot a perder a Supertaça para o Crystal Palace nos penáltis (2-2, 3-2 g.p.). Pelo meio, o clube investiu como nunca, aproximando-se dos 500 milhões de euros em contratações (482,9 milhões, segundo o Transfermarkt), mas o forte investimento parece estar longe de surtir efeito. Afinal, o que se seguiu voltou a colocar o Liverpool na estaca zero, ao nível dos primórdios de Jürgen Klopp. Chegados ao último fim de semana de novembro, os reds levam nove derrotas e um empate (que terminou em derrota), tendo ganhado apenas metade dos 20 jogos disputados em 2025/26. Resultado? 12.º lugar na Premier League, ainda que a três pontos do top 4; 13.º lugar na Champions; e eliminação na quarta ronda da Taça da Liga, com uma goleada caseira sofrida contra o Crystal Palace (0-3). Todos os desaires registaram-se nos últimos 12 jogos, ainda que, pelo meio, o Liverpool tenha conseguido vencer o Eintracht Frankfurt (fora, 5-1), o Aston Villa (casa, 2-0) e o Real Madrid (casa, 1-0). Já não existe forma de esconder a crise que se sente em Anfield.

Os números tornam-se ainda mais desoladores se tivermos em conta que a equipa da cidade dos Beatles não perdia três jogos seguidos por três golos há… 72 anos. O cenário negativo começou no Etihad com o Manchester City (0-3), prosseguiu na receção ao Nottingham Forest (0-3) e terminou, para já, no jogo frente ao PSV (1-4), em que os reds começaram a perder através de um penálti do capitão Virgil van Dijk, que se elevou para cortar um cabeceamento mas fê-lo com o braço esticado no ar. O experiente Ivan Perisic não desperdiçou a oportunidade e colocou os neerlandeses na frente logo aos seis minutos. No final, Curtis Jones analisou o jogo e o momento da sua equipa, tendo sido bastante incisivo nas declarações proferidas à RTE.

“Somos uma equipa na m****. Não tenho respostas. Sinceramente, não tenho. Digo-o a toda a gente. É simplesmente inaceitável. Nem preciso de esperar para pensar nisso. Já não estou tão zangado. Estou num ponto em que simplesmente não tenho palavras. É difícil porque jogo pela equipa que apoio. Sou adepto e vejo este clube desde sempre. Há muito, muito tempo que não via o Liverpool passar por uma fase como esta, com resultados como estes. Mas, no final, continuamos a ter este escudo ao peito. E até o perdermos, vamos sempre lutar. Vamos tentar que esta equipa volte a estar onde deve estar, mostrar a todos novamente o que é este clube e porque é que o chamam de melhor equipa do mundo. Mas, neste momento, estamos numa situação complicada e isso tem de mudar”, explicou o médio de 24 anos, que representa o Liverpool desde os dez anos, depois de mais um jogo marcado pela impotência de reagir à adversidade.

Por outro lado, e apesar dos maus resultados, que levaram parte dos adeptos a assobiarem a equipa no final do jogo contra os neerlandeses, Arne Slot continua tranquilo no comando técnico dos reds. “Sinto-me seguro, estou bem. Tenho muito apoio vindo de cima. Seria bom dar a volta à situação e conseguir uma vitória, claro, mas se trabalhas como treinador e não estás bem, é normal que surjam dúvidas. Estou bem com a minha posição. Não é a primeira vez que me encontro numa situação difícil, mas já está na hora de recuperarmos. Se qualquer treinador no mundo perde jogos, é bastante normal que as pessoas tenham uma opinião sobre isso. Tento analisar e ajudar os jogadores o máximo que posso, e é óbvio que não estou a fazer isso como fiz na temporada passada. Tenho que fazer melhor e é isso que tento fazer todos os dias”, explicou o treinador que, na época passada, alcançou o melhor início de sempre do Liverpool, com oito vitórias nas primeiras dez jornadas do Campeonato.

“Anfield diz tudo: as bancadas estavam vazias a dez minutos do final e, quando chegou o terceiro golo, o jogo acabou. Os problemas do Liverpool agravam-se e a pressão intensifica-se ainda mais. Sem dúvida que há muito que fazer muitos exames de consciência esta noite [quarta-feira]”, assumiu Steven Gerrard, lenda do clube, à TNT Sports. Para já, a mira dos adeptos parece apontar para as contratações, com Alexander Isak, que custou 145 milhões, a figurar como o maior protagonista neste capítulo. Ao cabo de 14 jogos disputados, o avançado sueco marcou apenas um golo e fez uma assistência, tendo perdido a titularidade no jogo contra o PSV. Por outro lado, Florian Wirtz (comprado por 125 milhões) está lesionado e Milos Kerkez (46,9 milhões) demora em afirmar-se no lado esquerdo da defesa. Já Hugo Ekitiké (95 milhões), que leva seis golos e uma assistência em 18 jogos, ter-se-à lesionado frente aos neerlandeses.

Para Stephen Warnock, antigo lateral do Liverpool, que venceu a Liga dos Campeões em 2005, os “jogadores precisam de voltar ao básico porque estão a passar por um momento difícil”. “É preciso levantar a moral mas isso é muito difícil. Não há jogos fáceis para ele. Acho que há um panorama mais amplo sobre tudo o que tem acontecido em torno do clube. Há uma diferença enorme em relação ao ano passado e ao que está a acontecer. No entanto, esta é uma indústria orientada para os resultados e, neste momento, o Liverpool está a perder jogos de forma contundente e os sinais não indicam que isso esteja a mudar… não há melhorias. Mas a que se deve isso? É culpa do treinador? É devido ao que aconteceu com Jota? Acho que esta é uma situação muito difícil para o clube analisar, devido a tudo o que a rodeia”, explicou Warnock à BBC.

Para já, o Liverpool, mais concretamente o Fenway Sports Group, que controla a totalidade do capital do clube há 15 anos, está determinado em manter o plantel na atual situação, pelo que possíveis medidas só deverão surgir se o problema se agravar e Michael Edwards, CEO do grupo e responsável pelo futebol, considerar que os reds não estão a navegar na direção certa. Apesar de o clube inglês, que foi fundado em 1892, se caracterizar por ter tido apenas 24 treinadores ao longo da sua história, o cenário antes de Klopp demonstrava pouca paciência por parte dos donos do clubes, já que, no espaço de cinco anos, tinham sido despedidos três treinadores: Brendan Rodgers (junho de 2012 a outubro de 2015), Kenny Dalglish (janeiro de 2011 a maio de 2012) e Roy Hodgson (julho de 2010 a janeiro de 2011). Este poderá ser o caminho de uma Slot Machine longe de voltar a engrenar apesar de todo o investimento feito durante o verão.