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O super-vulcão de Yellowstone, nos EUA, teve várias erupções gigantes no passado

Uma equipa de cientistas estudou o impacto dos terramotos na vida subterrânea em Yellowstone, onde organismos prosperam longe do calor e da energia do Sol, e analisou de que forma alteram o que está disponível no “menu” microbiano sob a caldeira do supervulcão norte-americano.

O Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, é famoso pela sua atividade geológica, incluindo sismos.

Embora sejam frequentes os rumores de que está prestes a entrar em erupção num cataclismo vulcânico devastador, Yellowstone apresenta naturalmente milhares de pequenos sismos por ano.

Em 2021, por exemplo, Yellowstone sofreu 27 enxames sísmicos, ou seja, aglomerados de sismos que ocorreram no mesmo local e horário. Um só destes enxames chegou a ter 825 tremores, recorda o EarthSky.

Num estudo publicado na terça-feira na revista PNAS Nexus, uma equipa de cientistas analisou a forma como os pequenos terramotos ocorridos em 2021 influenciaram os microrganismos presentes nos sistemas rochosos e aquíferos sob o Campo Vulcânico da Cordilheira de Yellowstone.

Estas formas de vida não obtêm energia através da fotossíntese, mas sim de reações químicas relacionadas com o movimento da água através de rochas fraturadas.

Os resultados do estudo podem ajudar a perceber como pode existir vida em locais inesperados e têm implicações na busca por vida extraterrestre, nota o Gizmodo.

“A energia sísmica, como a libertada pelos sismos, pode fraturar a rocha e, dessa forma, alterar os percursos do fluxo de fluidos subterrâneos, libertar substratos de inclusões e expor superfícies minerais frescas capazes de reagir com a água”, explica Eric Boyd, investigador da Montana State University (MSU) e autor principal do estudo.

“Todos estes acontecimentos podem desencadear reações químicas novas. No entanto, não está claro de que forma estas alterações induzidas por atividade sísmica influenciam as comunidades microbianas”, acrescenta o investigador em comunicado da MSU.

Para colmatar esta lacuna, os investigadores recolheram amostras de água de uma perfuração situada na margem ocidental do Lago Yellowstone, em cinco momentos distintos ao longo de 2021.

Esta abordagem revelou um aumento significativo nos níveis de hidrogénio, sulfureto e carbono orgânico dissolvido após os terramotos — fontes de energia cruciais para muitos organismos subterrâneos.

Foi também registado um acréscimo de células planctónicas, indicando que a coluna de água albergava mais microrganismos do que o observado antes dos sismos.

Estas alterações químicas e biológicas sugerem que a atividade sísmica aumentou temporariamente os recursos disponíveis para a vida microbiana. Além disso, foi registada uma alteração nos tipos de moléculas ao longo do tempo.

Este facto é especialmente relevante, uma vez que, habitualmente, as comunidades microbianas subterrâneas em aquíferos de rocha continental são consideradas bastante estáveis. Contudo, o sistema subterrâneo analisado parece ter mudado de forma rápida e evidente em resposta à energia sísmica.

A equipa de concluiu que a energia cinética dos terramotos pode afetar a química e a biologia dos fluidos em aquíferos — zonas subterrâneas de rocha saturada de água que podem abastecer poços e nascentes.

Os resultados sugerem que até pequenos eventos sísmicos podem provocar alterações significativas nos ecossistemas subterrâneos.

Yellowstone não é a única região com atividade sísmica regular, pelo que sismos semelhantes noutras zonas poderão desencadear mudanças parecidas nos recursos energéticos subterrâneos. Se este processo for comum, poderá ajudar a explicar como sobrevivem microrganismos em ambientes profundos e isolados.

Mais ainda, isso poderá ter implicações para a vida além da Terra. Se um mecanismo semelhante ocorrer noutros planetas rochosos com água, poderá alargar a nossa compreensão sobre potenciais habitats para pequenos organismos extraterrestres em locais como Marte.


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