Fusarium, soloFusarium é um gênero de fungos presente no solo e em plantas do mundo todo. Diego Portalanza Diego Portalanza 29/11/2025 06:03 5 min

Os nomes são complicados, mas a história é simples e fascinante: um fungo microscópico isolado de uma planta da Mata Atlântica produziu moléculas naturais capazes de “segurar” o crescimento de plantas daninhas em laboratório, com desempenho melhor que herbicidas famosos como o glifosato e a clomazona, em um tipo específico de teste.

Solo, pragas, plantas daninhasEspécies de Fusarium podem conviver de forma silenciosa com as plantas ou causar doenças importantes.

Em um país que é potência agrícola e, ao mesmo tempo, líder no consumo de agrotóxicos, qualquer descoberta que aponte para defensivos mais sustentáveis chama atenção. É exatamente isso que traz um estudo recente da Academia Brasileira de Ciências, conduzido por pesquisadores da UFMG, que investigaram um fungo endofítico do gênero Fusarium como possível fonte de novos bioinsumos para a agricultura.

Um aliado invisível dentro das plantas

Os chamados fungos endofíticos vivem “por dentro” das plantas, sem causar doença aparente. Em muitos casos, eles produzem substâncias químicas que ajudam a planta a se defender de pragas, doenças ou competidores. Em vez de atacar a planta hospedeira, funcionam como uma espécie de microbioma protetor, ainda pouco explorado pela ciência.

Mata atlantica, Minas,Floresta tropical úmida em Minas Gerais, remanescente de Mata Atlântica e fonte de rica biodiversidade microbiana.

No estudo, os cientistas trabalharam com o Fusarium UFMGCB 15449, um fungo guardado em coleção de microrganismos da UFMG. Esse endófito foi isolado de uma planta medicinal do gênero Piper, coletada em área de Mata Atlântica em Minas Gerais. A equipe cultivou o fungo em laboratório, extraiu os compostos químicos que ele produz e começou a testar, passo a passo, quais frações tinham efeito sobre plantas e fungos.

Herbicida natural?

Depois de várias etapas de purificação, os pesquisadores chegaram a três moléculas principais, todas da família das quinonas: anidrofusarubina, javanicina e um terceiro composto de nome comprido (5,10-dihydroxy-1,7-dimethoxy-3-methyl-1H-benzo[g]isochromene-6,9-dione), apelidado no artigo de “composto 2”.

Glifosato, herbicidaGlifosato, um dos herbicidas mais usados no mundo, serviu como referência para comparar a potência dos compostos naturais estudados.

Em seguida, essas moléculas foram colocadas à prova em modelos usados pela indústria de pesticidas e pela ecotoxicologia. Entre os resultados, destacam-se:

  • Em alta concentração, os três compostos conseguiram inibir 100% a germinação de sementes de alface e de uma gramínea usada como modelo, com desempenho comparável a um herbicida sintético de referência.
  • Em testes com lentilha-d’água (Lemna), um organismo aquático muito usado para avaliar fitotoxicidade, os compostos apresentaram valores de IC₅₀ (concentração que reduz o crescimento em 50%) menores, portanto, mais potentes, do que glifosato e clomazona em condições experimentais semelhantes.
  • O “composto 2” ainda mostrou boa atividade antifúngica contra Colletotrichum fragariae, fungo que causa doenças em culturas agrícolas, com zonas de inibição maiores que substâncias naturais de referência como carvacrol e timol.

É importante reforçar: tudo isso aconteceu em ambiente de laboratório, em condições controladas.

Não significa que o composto possa ser aplicado diretamente sobre uma lavoura amanhã, mas indica que ele é um excelente candidato para inspirar o desenvolvimento de novos produtos.

O futuro das lavouras brasileiras

Para o Brasil, que vive o desafio de conciliar alta produtividade com menor impacto ambiental, achados como esse conversam diretamente com a agenda de bioinsumos e com a pressão internacional por cadeias mais limpas. Se um fungo da nossa própria biodiversidade produz moléculas tão potentes quanto (ou mais que) herbicidas consagrados em certos testes, abre-se uma janela para tecnologias menos dependentes de síntese química pesada e possivelmente mais específicas.

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Mas entre o tubo de ensaio e o pulverizador há um longo caminho. É preciso testar dose-resposta em diferentes espécies de plantas, avaliar toxicidade para organismos não alvo, impactos na água e no solo, custo de produção, estabilidade em campo e, claro, passar por toda a regulamentação exigida para um novo pesticida.

Referência da notícia

Phytotoxic and antifungal compounds for agriculture are interestingly produced by the endophytic fungus Fusarium sp. (Ascomycota) isolated from Piper sp. (Piperaceae). 18 de agosto, 2025. Barreto, D. et al.