A lei que deveria assegurar moradia digna para famílias de baixa renda ainda não foi implementada na maioria dos municípios brasileiros. Por isso, muita gente ainda vive de forma precária e não consegue sair dessa situação sem ajuda.
“Ainda que eu faça um projeto voluntário para essa pessoa, não vai adiantar de nada, porque ela não vai ter como executar essa obra”, afirma Karol. É aí que entra a filantropia.
Moradias atingidas pela enchente na Vila Liberdade, em Porto Alegre. Foto: Bettina Gehm/Sul21
“A gente busca quem possa patrocinar, quem possa doar para que a gente faça a obra. Não temos como fugir de pegar recursos com instituições que, sim, poluem pra caramba, beneficiam o mercado imobiliário e financiam campanhas eleitorais. Mas são empresas com muito dinheiro e que precisam devolver isso para a sociedade. É o que eu chamo de hackear o sistema”, detalha a arquiteta.
O escritório de arquitetura popular é uma ponte entre o recurso e a família que vive em precariedade habitacional, que adoece por falta de melhorias na casa. “A família vai receber a obra de graça, como preconizado na lei, mas nesse caso o arquiteto vai estar sendo pago pelo recurso do capital privado. É uma forma de não precarizar a nossa profissão”, diz Karol.
A Kopa também realiza projetos pro bono voltados a associações da sociedade civil que trabalham dentro de periferias. São entidades que precisam melhorar suas sedes, mas não têm condições de arcar com o projeto arquitetônico. Depois que a associação capta recursos, pode – ou não – pagar pelo serviço dos arquitetos.
“O assistencialismo é muito importante, indiscutivelmente. Mas, por outro lado, não podemos precarizar a nossa profissão”, resume Karol.
A arquiteta pondera ainda que utilizar capital privado não é o ideal, mas o déficit habitacional se impõe diante da fragilidade de políticas públicas. “A gente está mostrando, querendo ou não, que dá para fazer. Eu quero que a Kopa Coletiva acabe, que um dia ela não precise existir mais. Mas, enquanto as pessoas não forem atendidas pela lei, não podemos ficar de braços cruzados”.