Essas críticas são sublinhadas pela oposição à moção A, que se apresenta a esta convenção mais fragmentada do que no passado. A moção S vai contar com 55 delegados, a moção H com 19 e as moções B e C com 13 delegados cada. Todas juntas não chegam para fazer sombra aos 498 delegados eleitos pela moção da continuidade. Na anterior convenção, Pedro Soares conseguiu unir a maioria dos descontentes na moção E, que, ainda assim, acabaria por conseguir apenas 15% dos votos na corrida contra Mortágua.
Desta feita, o antigo deputado estará ausente da convenção, mas, mesmo assim, não deixou de antecipar que José Manuel Pureza vai “manter a mesma linha” da direção de Mortágua. “O problema é que José Manuel Pureza faz parte do núcleo central e da entourage. O que me parece ser necessário é uma nova resposta política, mudanças profundas. Não continuar a depender — como tem vindo a ser feito desde a geringonça — do Partido Socialista”, disse em entrevista ao Observador.
Esta é outra questão que dará lugar à maior discussão durante o fim de semana: deve ou não o partido unir-se à esquerda? “O sectarismo impediu de fazer alianças pré-eleitorais com o Livre, nas eleições legislativas. Se o tivéssemos feito, só obteríamos vantagens sem qualquer prejuízo para a nossa imagem e para os nossos princípios”, afirmam os subscritores da moção S. A moção de Pureza também indica no mesmo sentido, mas com as próximas eleições (além das presidenciais) em 2029, o plano da convergência à esquerda terá de esperar até ser posto em ação.
Por fim, a discussão à volta da democracia interna no Bloco também dominará certamente o debate. Antes do início da convenção, as críticas à figura de secretário da organização já começaram a fazer-se ouvir. Enquanto a moção da continuidade promete alguém com “responsabilidade de dialogar permanentemente com as estruturas locais e articular essa comunicação para que a organização possa funcionar sem que isso tenha de estar dependente da coordenação do partido”, a moção S vê no anúncio uma manifestação da “ausência de autocrítica“. Nuno Pinheiro defende que só isso justifica que a moção A “permita arrogar-se no direito de anunciar modelos organizativos novos, transmitindo a ideia falsa que tudo está bem e que basta mudar nomes”.
Há quem entenda, porém, que Pureza merece o “benefício da dúvida” por não estar “tão ligado às tendências que têm controlado o Bloco”, como defende Américo Campos da moção C. De maneira diferente, Ana Sofia Ligeiro, da B, afirma que “não há nenhum distanciamento de Pureza da direção atual do partido” e propõe mudanças estruturais como, por exemplo, um limite de mandatos aos órgãos do partido. Nuno Pinheiro oferece ainda outra perspetiva sobre o próximo líder do Bloco.
Este militante admite que o antigo líder parlamentar bloquista pode vir a ser apenas uma “figura de fachada”. Isto porque “está em Coimbra, quando há uma grande concentração de poder em Lisboa”, justifica, assinalando que existem “outras forças que têm dominado o Bloco” e podem impedir uma coordenação efetiva de Pureza.