Uma amiga manda três fotos, com três roupas, “qual você sugere pro meu LinkedIn?”. Antes de reparar nas roupas, respondo impressionado: “Como você conseguiu exatamente o mesmo ângulo e a mesma cara nas três fotos?”. “É IA.” Ela pegou uma foto em que estava bonita e pediu: “Um vestido preto básico, braços à mostra”. “Camiseta branca, gola rulê.” “Uma blusinha bege, colar verde com pingentes.”
Essas ordens, eu não sabia, se chamam “prompt”. “Prompt” é o pedido que você faz pra inteligência artificial criar algo. “Quero um urso azul com cara de bonzinho dançando lambada e comendo um cachorro-quente na quadra da Portela.” “Quero Einstein lutando MMA com Leonardo da Vinci na praça Benedito Calixto.”
A máquina faz. Faz tudo errado no começo, porque ela ainda é mais artificial do que inteligente, mas quanto mais você afina o “prompt”, mais ela afina a resposta. Minha amiga, depois de alguns “prompts” tava pronta nas três fotos —embora na última estivesse com três orelhas. Bugs que logo serão consertados.
Fiquei pensando: hoje minha amiga pode se vestir como quiser numa foto pro LinkedIn. Daqui a pouco, quando todos usarem óculos ou lentes de contato da Meta ou da Open IA, não será apenas nas fotos que nos vestiremos como quisermos, mas aos olhos (ou às lentes) dos outros. Imagino um casamento.
Tem que ir de terno. Detesto vestir terno. Vou de bermuda, regata e pantufas. Mas programo minha IA para emitir pras IAs alheias um terno muito chique –e é assim que todos me verão no casamento.
A não ser, é claro, que algumas pessoas tenham filtros em suas IAs visuais. Digamos que meu amigo Rodriguêra, com quem eu andava de skate na adolescência, se recuse a ver qualquer pessoa de terno. Ele é contra terno. Odeia terno. Tem “skate or die” tatuado no peito. Decidiu viver num mundo sem ternos. Suas lentes mudarão as roupas de todos que ele cruzar para as que mais lhe agradarem.
Rodriguêra é palmeirense roxo. (Verde, no caso). Pode programar a ferramenta para, em dias de jogos do Palestra, ver todo mundo que olhar com roupas do Palmeiras. O papa com camisa do Palmeiras.
A Monalisa com a camisa do Palmeiras. Jesus, na cruz, com uma tanguinha do Palmeiras. E pode ver todos os são-paulinos (sua IA saberá quem é são-paulino, a não ser que a IA dos são-paulinos tenham filtros) com focinhos e chifres de Bambi.
Talvez haja um filtro nos óculos e lentes da IA, lei do país, que proíba a programação para ver todos os são-paulinos de Bambi, pois seria considerado homofobia. Talvez este filtro converta automaticamente todos os são-paulinos que o Rodriguêra quisesse ver transformados em Bambi numa mensagem “A homofobia é crime hediondo, procure ajuda”.
Pode ser que as lentes da IA puxem, a partir desse alerta anti-homofobia, vários stand-ups homofóbicos ou anti-woke. Pode ser que a pessoa seja processada pelo que os algoritmos a fizeram ver, afinal, os algoritmos são um chorume de tudo o que ela pensa.
Conto pro Márcio, meu amigo, essa visão de futuro. Ele discorda. As pessoas não quererão ver todo mundo numa festa com as roupas que ela gosta. As pessoas querem ser surpreendidas, ver coisas diferentes, aprender. Infelizmente, discordo. O primeiro “prompt”, o “prompt” mais eficiente da história da humanidade, dizia que Deus nos fez à sua imagem e semelhança.
Com nossos óculos ou lentes “inteligentes”, poderemos enxergar o mundo à nossa “imagem e semelhança”. Cada um pode ser o deusinho de seu próprio mundo. Enxergar só o que quiser. Da forma que quiser. Igualzinho a si. Pensando bem, é exatamente como já é. Só com melhor tecnologia.
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