Marie Ndiaye lança-se à prosa como quem mergulha. Em Ladivine, terceiro livro da autora publicado em Portugal (seguindo-se a Três Mulheres Poderosas, pela Texto Editores, em 2010, e a A Vingança é Minha, pela Alfaguara, em 2024), temos uma narrativa que pega nesse território tão imensamente fértil em literatura, que é a família – assunto que bastaria, aliás, para se fazer a literatura inteira.

Aqui, temos uma história familiar agarrada a segredos — história que, durante grande parte da narrativa, se erige precisamente na manutenção e no sussurrar desses mistérios. A tensão fica evidente no enredo, mas vai além disso, e marca a psique das personagens. Ao longo da leitura, acompanhamos a relação que a agora Clarisse Rivière – outrora Malinka – tem com a mãe, Ladivine, por quem foi criada a sós na periferia de Paris. Clarisse tem agora uma filha e mudou de vida e de nome: ao apartar-se das suas raízes, garantiu que não estas chegavam até à sua nova vida, e alimenta o seu passado com migalhas, visitando a mãe uma vez por mês, às escondidas do marido – também a mãe lhe desconhece o presente. É esta relação entre mãe e filha que estrutura o romance, ao ser este o elemento que traz para a narrativa elementos que vão além da descrição de factos, ou seja, do delinear dos eventos. Pela história de ditos e não-ditos, tratam-se as subtilezas emocionais de ambas, num cenário em que se sublinham as questões de identidade, pertença, memória e até herança emocional. É na forma como a autora tece tudo isto, como quem cose pontos com precisão cirúrgica, que se entrelaçam os mundos interiores com os contextos familiares e sociais, numa articulação que é apresentada ao leitor de forma escorreita.

Ndiaye apresenta Ladivine de forma quase clínica. Logo nas primeiras páginas, o leitor leva com um retrato panorâmico, que não apenas evidencia o seu estado actual de vida, mas também traz para a narrativa a relação conflituosa com o passado. Além disso, temos acesso a uma radiografia do que tem por dentro, e o segredo que oculta, a vida dupla, aparece como parte constitutiva de quem é. A forma como as duas vidas coexistem, com ela a transformar-se noutra – em si – a partir do momento em que se mete no comboio em direcção à mãe, mostra o jogo de conjugação de histórias, de famílias. A relação entre Ladivine e Malinka mostra o efeito que as palavras de quem cuida têm em quem é cuidado, ou seja, de que forma uma mãe molda emocional e socialmente uma filha. Não é que haja, entre as duas, na prosa que nos é dada, diálogos expansivos ou confrontos explícitos; em vez disso, são os silêncios e as pequenas transgressões quotidianas que evidenciam perante o leitor a tensão. Com uma mão segura, Ndiaye vai mostrando de que forma é que gestos contidos carregam informação, de que forma pausas têm mais informação emocional do que qualquer discurso explícito, e é nesta subtileza – nesta elegância – que a autora mais brilha, mais voa.

Título: “Ladivine”
Autora: Marie Ndiaye
Tradução: Catarina Ferreira de Almeida
Editora: Alfaguara
Páginas: 416

Com Ladivine a trabalhar como empregada doméstica, e com Malinka a ter feito uma espécie de movimento social ascendente, surge a questão da vergonha do trabalho e das origens da mãe – e, ao mesmo tempo, uma certa repulsa pela possibilidade de voltar a outra vida e a outra percepção sobre si. Ora, no momento em que a segunda Ladivine cresce (a filha de Malinka), passa a existir uma busca da sua parte pelas questões do seu passado, o que também serve para abrir os eixos da exploração identitária. Ainda assim, o leitor nunca se distancia de todos os movimentos que Malinka faz para, conscientemente, se distanciar do que foi a sua vida, mantendo esse passado às escondidas até do marido (e, durante algum tempo, da própria filha).

Dividindo-se em três partes, o livro explora as várias ramificações desta família, deixando à vista uma história infeliz de gente infeliz, não raras vezes a esconder quem é para forçar um outro lugar no mundo, com repúdio pela sua condição. A relação de Malinka com a mãe, por si só, já tem elementos suficientes para explorar a condição humana. Não é que a infância, passados tantos anos, lhe seja clara, mas a memória ainda guarda o pequeno apartamento em que viviam as duas, assim como a posição da mãe perante o mundo: mais escura do que as outras, limpava casas alheias, e vivia numa submissão constante. Malinka, filha dela e de um francês branco que nunca conheceu, podia passar por branca e, por isso, dizia na escola às amigas que a mãe era empregada. A sensação de repúdio perpassa todo o livro, que se faz mais cortante nos momentos em que, já a filha crescida, mudado o nome, conversa de forma quase distante com a mãe, com as duas a evitar o que não precisa de ser dito – a mãe nem sequer sabe como corre a vida à filha, embora perceba, pela forma como se apresenta, que corre bem. Para o leitor, fica claro que o desejo que Ladivine tinha, de que a filha não passasse pelo mesmo que ela passara, vinha com este preço.

O grande mérito do romance passa pela forma como a autora consegue contar esta história, tecendo tantos elementos, sem nunca ceder à tendência contemporânea de etiquetar ou catequizar. Embora estejam presentes na narrativa várias questões de género, de classe e de raça, as personagens não se perdem a expô-las ou a verbalizá-las. Em vez disso, a história é contada com o que tem de complexo, e nem sequer precisam de entender tudo o que existe, à académico. Percebem, no entanto, que há camadas de tensão que não tinham de estar lá, que tantas vezes são internalizadas.

A prosa de Ndiaye é enxuta, permitindo ao leitor encarar a tela de uma vida. Não há parágrafos inúteis, sendo estes operantes na narrativa, que saltita entre presente e passado de forma integrada, permitindo ao leitor ver de que forma as memórias e a consciência actual se entrelaçam para as personagens, num jogo que garante tensão até ao fim.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.