Nando Reis diz se lembrar muito bem do primeiro encontro que teve com Cássia Eller, lá no início dos anos 1990, na casa de Marisa Monte, então namorada do ex-Titã. “Foi muito breve e muito maluco”, conta ele à coluna.

Tímida, a cantora pouco falou. Passou o tempo todo ouvindo as músicas que Nando —que na época despontava também como compositor— apresentava para ela. Da safra de canções, gravou “E.C.T”, um dos grandes sucessos de sua carreira.

Foi só anos depois, quando o músico foi chamado por ela para produzir o álbum “Com Você… Meu Mundo Ficaria Completo”, de 1999, que a parceria e a amizade entre eles de fato nasceu. Para fazer o trabalho, Nando disse que precisava conhecê-la. A partir daí, tiveram uma convivência intensa.

Desse relacionamento, ele criou “All Star”, faixa que começa com uma declaração de amor para ela —”estranho seria se eu não me apaixonasse por você”. Cássia, ao ouvir a letra, não teve qualquer reação em um primeiro momento. O que deixou Nando desconcertado, admite ele. O músico, aliás, nunca chegou a ouvir Cássia cantando a faixa ao vivo.

Foram os filhos que avisaram o pai que ela tinha incluído a canção no show que estava fazendo em São Paulo.

Nando conta que era acostumado com o silêncio da cantora. Diz que chegou a mandar dez cartas para ela, sem resposta. Revela que já até pensou em publicar esses textos em um livro. “Quem sabe um dia.”

O cantor homenageará a amiga a partir deste domingo (30) na turnê Corona Luau MTV, projeto que relembra o programa de sucesso da MTV e que reunirá, além do ex-Titã, a percurssionista Lan Lan, a cantora Céu e a banda Os Garotin. O primeiro show será em Brasília. Depois eles se apresentam em Santa Catarina (5 de dezembro), Rio de Janeiro (14) e São Paulo (21).

“Eu definiria a Cássia pela risada. A risada continha tudo: a graça, a transgressão, a identidade, o prazer. Consigo ouvir o som [da risada] dela, está dentro de mim”, diz ele.

A turnê é uma iniciativa da cerveja Corona em parceria com a Paramount, a Skydance Corporation, e realização da 30e.

PRIMEIRO ENCONTRO

A Marisa [Monte] sugeriu de a gente mostrar [músicas compostas por ele] para a Cássia. Convidamos ela para ir à casa da Marisa. Foi um encontro muito breve e muito maluco porque a Cássia é muito tímida. Ela chegou, falou oi, ligou o gravador, eu toquei as músicas, ela desligou [o gravador] e tchau. Mas não com frieza ou falta de educação, mas mais como uma falta de traquejo. Essa foi a primeira vez que eu a vi. Guardo mais a sensação daquele encontro entre estranhos. E mais tarde eu identifiquei nisso [na timidez] o fio da conexão que viemos a estabelecer três ou quatro anos depois. Dessas músicas [que ele apresentou naquele dia], ela gravou ‘E.C.T.’

CONEXÃO

Em 1998, o [baixista] Fernando [Nunes], que era muito próximo da Cássia, sugeriu que ela me convidasse para produzir o disco. Ela convidou e eu falei: ‘Claro que eu topo, mas preciso te conhecer, a gente precisa conversar, [preciso] saber do que você gosta, que músicas você quer’. A gente tinha alguns traços de personalidade semelhantes. A Cássia, como eu, era tímida. Por outro lado, nosso ambiente junto era extremamente confortável, porque a gente gostava e ficava à vontade [um com o outro]. Durante esses meses em que eu fiquei lá, no Rio de Janeiro [Nando morava em SP], todas as oportunidades que eu tive de poder sair do estúdio, ia para a casa dela. E ficávamos a noite toda tocando violão, conversando, especulando.

‘MUNDO COMPLETO’

Nós estávamos [encantados] um pelo outro, e ela queria gravar um disco só com músicas minhas. O que eu vetei e falei: ‘Cássia, de jeito nenhum, você acabou de gravar um disco só do Cazuza e não é disso que você precisa. Você precisa justamente mostrar o quão amplo é o seu espectro, o quão grande você é, que vai muito além dessa ideia medíocre da cantora sapatona que canta blues berrando. Esse é um estereótipo indigno’. E não se tratava de uma ideia que eu impus. Pelo contrário, foi uma compreensão de quem ela era.

METEORO

A Cássia, na minha vida, foi uma passagem meteórica. Eu a entendia.

O grande produtor é o que não está presente. A minha função é interpretá-la. Lembro de uma ocasião em que ela chegou atrasada para gravar e não estava bem. Olhei para ela e falei: ‘Não, você não vai gravar’. Ela ficou em pânico, ‘não, mas a gravadora, o estúdio, precisa gravar’. Eu falei: ‘Isso é meu problema, sou o produtor, vai para casa dormir’. Eu tinha um cuidado.

Muitas vezes consegui captar o que ela queria sem que ela mesmo soubesse. Era a minha função: traduzir, interpretar, fazer a costura e tudo o mais.

FALTA

[O que mais sinto falta] é dela, do trabalho com ela, dela ao meu lado, o nosso encontro, daquilo que fizemos juntos. Eu morava em São Paulo, ela morava no Rio. Não é que a gente se ligava, ia ao cinema, tomava um chope. Não. A falta que ela me faz é justamente do encontro [musical] e, obviamente, de ela cantar e de cantar as minhas músicas como ela cantou. E provavelmente continuaria cantando.

É claro que eu já pensei, pô, a Cássia ia cantar muito bem [alguma música do repertório dele]. O maior elogio que ela me fez foi dizer que eu era o compositor que falava de amor de uma forma que ela gostava, entendia e poderia cantar.

‘ALL STAR’

Eu escrevi [essa música] sobre nós dois. O que, aliás, é uma das coisas que eu fico mais feliz de ter feito. Não é uma música de homenagem. É uma música que era a forma que eu tinha de dizer para ela a importância que ela tinha, o amor que eu tinha [por ela], o lugar que ela tinha na minha vida. E inclusive, em um primeiro momento, quando eu mostrei a música, ela não teve nenhuma reação. Fiquei um pouco desconcertado porque a música começa ‘estranho seria se eu não me apaixonasse por você’. É uma tremenda de uma declaração. E ela não reagiu. Eu falei: ‘Cara, ela não gostou, acho que eu me excedi’.

Em 2001, a gente fez o ‘Acústico’. E quando ela foi estrear esse show em São Paulo, meus filhos foram ver. Liguei para casa e falei com a Sophia [filha]. Daí ela falou: ‘Pai, ela cantou aquela música, a música do tênis’. E eu fiquei ‘ãh?’. E ela passou a cantar ‘All Star’ no show.

Eu nunca vi a Cássia cantando [‘All Star’] ao vivo. A versão que tem no disco póstumo foi extraída de um show dela.

TERCEIRO DISCO

O que ficou incompleto foi o terceiro disco. Na tarde que se seguiu à gravação do Luau [MTV, de 2001], na Costa do Sauípe [BA], teve uma hora em que a gente sentou num terraço, perto do mar, e ficou conversando. E eu disse: ‘Nós vamos fazer só mais um disco juntos’. E ela: ‘Ah, mas por que?’. Eu falei: ‘Você tem muita coisa para apresentar, você tem que trabalhar com outras pessoas’. Ela falou ’tá bom’ e [pouco depois] morreu. Ficou aquele vazio. Depois tive a ideia de fazer o disco póstumo.

PAIXÃO

Fui muito apaixonado. Nós nunca namoramos.

[Vocês tiveram alguma coisa?] Isso eu não vou revelar. A gente teve, sim, um grande amor. Os nossos filhos são os nossos discos. Esse é o nosso legado. Eu adorava encontrar ela. E tenho certeza que ela gostava porque quando a gente estava junto, a gente era muito alegre, era muito bom, gostoso, [a gente] se bastava. Ela era parecida comigo, bicho. A gente se dava muito bem. E, óbvio, ela era encantadora, porque ela era linda, inteligente pra caralho, cantava de um jeito que você ficava de quatro, apaixonado por ela. E [ela] gostava de mim. Dava bola para mim [risos].

USO DA IA

Acho um horror [o uso da IA para recriar a voz de Cássia]. Já com holograma tinha aflição. Não gosto disso. Acho quase que um ultraje. Sou um cara ainda muito analógico nas relações, na forma como eu componho, no que eu trabalho. A inteligência artificial é um pastiche. Quando ela pretende replicar uma pessoa, não tem chance. Não tem.

Tenho aflição dessas coisas. Tenho aflição de fantasma, de assombração, de lagartixa, de parapsicologia, de tudo. Eu respeito todo mundo, mas não lido bem com essas coisas.

SEM PANFLETAGEM

Não tenho ideia [de como ela estaria em 2025]. Sempre soa um pouco presunçoso [prever]… certamente estaria cantando. Isso acho que posso [dizer]. A Cássia era muito inteligente e muito articulada. Mas ela era dessas pessoas que não precisava falar. Sempre fiz uma analogia dela e do Ney Matogrosso. São pessoas que não têm discurso, elas têm ação. Não tem panfletagem. Vejo nela uma coesão. O que ela não queria, não fazia. E isso era uma coisa boa.

Poucas vezes ela disse não para mim. A gente se dava muito bem, as nossas ideias eram convergentes. Mas ela sabia o que não queria. Ela bancava. No lançamento do disco ‘Com você’ no Canecão [no Rio], ela não cantou “Palavras ao Vento”, que era a música de trabalho. Não havia cristo que fizesse ela fazer uma coisa que ela não quisesse.

MÚSICA INÉDITA

[A música] “Convite Gentil” é justamente o convite que ela me fez para produzir o disco. [É uma música] legal, tem esse contexto, mas não sei se ela se sustenta como canção para ser gravada. Às vezes eu acho que seria um pouco forçação. Posso encaixá-la em algum momento, em algum álbum.

SORRISO

Eu definiria a Cássia pela risada. A risada dela continha tudo: a graça, a transgressão, a identidade, o prazer. A Cássia era uma pessoa que tinha prazer na vida, era intensa, alegre. O som da risada dela é magnífico. Consigo ouvir, está dentro de mim.

Todo fim de semana, eu canto a música que escrevi sobre ela e eu [‘All Star’]. Inevitavelmente, estou convivendo e conversando [com ela]. É uma presença contínua. É espantoso porque a força da música dela não é datada. É tão única e bela que resistirá a tudo.