Gage Skidmore / Flickr

Ted Cruz, senador republicano do Texas

Os preços dos automóveis novos nos EUA estão cada vez mais altos. Segundo os legisladores republicanos, a culpa é do excesso de sistemas de segurança — que estão a impedir que os veículos tenham um custo “acessível”.

Nos Estados Unidos, onde ter um automóvel é praticamente obrigatório para 92% da população, o aumento constante dos preços dos carros está a causar grande preocupação entre os consumidores — preocupação que chegou à classe política.

O custo médio de um carro novo no país atingiu recentemente valores recorde, enquanto as apreensões de veículos devido a incumprimento nos pagamentos estão no ponto mais alto dos últimos quinze anos.

Sempre à procura do próximo bode expiatório, os legisladores republicanos argumentam agora que a culpa reside na tecnologia dos automóveis, diz o Futurism.

No entanto, não criticam o excesso de aplicações multimédia, as chaves inteligentes, os bancos eléctricos aquecidos ou os serviços por subscrição remota, mas sim os sistemas de segurança que, segundo o regulador nmorte-americano de segurança rodoviária NHTSA, salvaram 860 mil vidas desde 1968.

Sim, leu bem. Segundo o The Wall Street Journal, os republicanos estão a organizar uma autêntica cruzada, liderada pelo senador Ted Cruz, para atacar as leis federais que obrigam à implementação de tecnologia de segurança nos novos automóveis.

Estas incluem sistemas comprovadamente eficazes e de baixo custo, como a travagem automática de emergência (AEB), que só deverá ser obrigatória a partir de 2029, e alarmes sonoros para lembrar os condutores de não esquecerem crianças no banco de trás.

O grupo de congressistas liderado por Cruz convocou uma reunião com executivos dos chamados “Três Grandes” construtores de Detroit (Ford, Fiat Chrysler e General Motor) e da Tesla para “explicarem o aumento dos custos dos veículos”.

Prevê-se que a reunião seja palco de grandes acusações, até porque, na prática, os líderes do setor automóvel já alinham com as prioridades republicanas.

No início deste ano, um grupo de lobby interpôs uma ação judicial contra o Departamento dos Transportes em nome da indústria automóvel, contestando os requisitos futuros de AEB.

As empresas alegam que estas normas “aumentam significativamente os custos”, apesar de muitas já oferecerem este sistema de série em alguns dos seus modelos.

No entanto, ao analisar a fundo o motivo do acréscimo dos preços, percebe-se que os legisladores estão a apontar o dedo ao alvo errado. Na prática, os avanços tecnológicos na automatização das fábricas permitiram aos construtores produzir automóveis a custos cada vez mais baixos

Num mundo ideal, os gigantes da indústria transfeririam essas poupanças para o consumidor; a eficiência deveria, afinal, baixar os custos. Mas isso implicaria uma redução dos lucros do setor — contrariando a lógica que sempre norteou as construtoras automóveis.

Os bancos dos carros são um excelente exemplo. Apesar do design dos assentos influenciar a segurança em caso de acidente, a indústria levou esta questão a outro nível, transformando-os em “bancos eléctricos” repletos de sensores biométricos, condutas de ventilação, codificadores e motores.

Por si só, os bancos não passam de mais um componente. Mas, equipados com todo este conforto tecnológico, tornaram-se uma indústria paralela, que já em 2014 valia 50 mil milhões de dólares, criando uma nova fonte de receita para as marcas e um novo encargo para os consumidores.

É um excelente exemplo de como o capitalismo, entregue a si próprio, tende a degenerar numa produção orientada pelo lucro e não pelas necessidades das pessoas, nota o Futurism.

Se os republicanos estivessem realmente preocupados com o aumento dos preços dos carros, atacariam os monopólios que os fazem crescer — e não as regras de segurança que mantêm os consumidores vivos.


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