A reunião deste domingo na Florida entre delegações de alto nível dos Estados Unidos e da Ucrânia acabou por não resultar em avanços que pudessem levar o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que chefiou a delegação dos EUA, a dizer mais do que esta ronda de negociações foi “produtiva”.
Mais importante foram as palavras do chefe de diplomacia norte-americana, citado pela Reuters, à entrada da reunião nos arredores de Miami: Washington quer “criar um caminho que permita que a Ucrânia permaneça soberana, independente e próspera.”
Em declarações recolhidas pelo New York Times no fim do encontro, o secretário de Estado reconheceu que “há mais trabalho a ser feito” para conseguir pôr fim à guerra na Ucrânia que dura há mais de três anos.
“Isto é delicado. É complicado. Há muitas partes em movimento e, obviamente, há outra parte envolvida aqui que terá de fazer parte da equação, e isso continuará ainda esta semana”, disse Rubio em breves declarações à imprensa.
Rubio e o chefe da delegação ucraniana, Rustem Umerov, falaram brevemente, sem responder a perguntas dos jornalistas. O chefe do Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia explicou que o seu país está grato à liderança dos EUA pelo “trabalho extraordinário” que estão a realizar para pôr fim ao conflito e por se mostrarem “extremamente solidários” com a causa ucraniana. E também caracterizou a conversa como “produtiva e bem-sucedida”.
Nenhuma das partes adiantou quando será a próxima ronda negocial entre os EUA e a Ucrânia. As discussões deste domingo seguem-se a cerca de duas semanas de negociações que começaram com um plano de paz dos EUA que, segundo críticos, inicialmente favorecia a Rússia, que iniciou o conflito na Ucrânia com a invasão do país vizinho em Fevereiro de 2022.
A equipa de Trump tem pressionado a Ucrânia a fazer concessões significativas, incluindo ceder território à Rússia, mas sem sucesso, para frustração do Presidente norte-americano que já se afirmou publicamente surpreendido por não ter conseguido encontrar ainda uma solução para o conflito, considerando a relação forte que mantém com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, que se tem resistido a concessões para parar os combates.
Enquanto as conversações com vista a um cessar-fogo vão e vêm, as forças russas na linha da frente da guerra vão avançando lentamente e consolidando as suas posições, de modo a que quando Moscovo se sentar realmente à mesa, o território do Leste da Ucrânia que a Rússia pretende anexar seja uma realidade inexorável.
Steve Witkoff, o enviado especial de Trump, e Jared Kushner, genro do Presidente, os outros dois elementos do triunvirato que se sentou à mesa de negociações no clube privado Shell Bay, em Hallandale Beach, perto de Miami, este domingo, deverão encontrar-se com responsáveis russos em Moscovo durante a semana que agora começa, de acordo com o New York Times.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que chegará esta segunda-feira a Paris para uma visita oficial, esperava que os resultados das reuniões anteriores em Genebra fossem “lapidados” este domingo na Florida. Em Genebra, a Ucrânia apresentou uma contraproposta às propostas apresentadas aos líderes em Kiev pelo secretário do Exército dos EUA, Dan Driscoll, há cerca de duas semanas.
Não se sabe se a delegação ucraniana conseguiu alcançar esse desiderato, nem se influiu negativamente na conversa o facto de ter sido obrigada a mudar o seu chefe negociador, Andriy Yermak, que se demitiu na sexta-feira do cargo de chefe de gabinete de Zelensky, envolvido num escândalo de corrupção.
Umerov fez tudo para cair nas boas graças dos negociadores norte-americanos (e do próprio Donald Trump, sabendo como este gosta de elogios), tendo começado a reunião por agradecer em inglês aos Estados Unidos pela sua mediação: “Os EUA estão a ouvir-nos, os EUA estão a apoiar-nos, os EUA estão a caminhar ao nosso lado.”
Mas, como escreveu no X o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Sergiy Kyslytsya, que também integra a delegação, “como diria um meteorologista, há uma dificuldade inerente em fazer previsões porque a atmosfera é um sistema caótico onde pequenas mudanças podem levar a grandes resultados”.