O debate entre António Filipe e João Cotrim Figueiredo abriu com a questão dos poderes presidenciais e rapidamente se transformou num laboratório das diferenças − com raras aproximações − entre dois candidatos à Presidência da República que partem de universos políticos opostos.
O encontro, transmitido pela SIC, começou com o candidato apoiado pela CDU a sublinhar que “os portugueses querem um Presidente que faça cumprir a Constituição” e que “aumente a sua magistratura de influência”, contrapondo esse papel ao de quem “geria tácticas políticas”, numa alusão indirecta a Marcelo Rebelo de Sousa. Por sua vez, o candidato apoiado pela IL garantiu que não irá para o Palácio de Belém defender que as políticas devem ser liberais. Cotrim rejeitou as ideias “bafientas” de António Filipe, enquanto este se mostrou céptico quanto à “multiplicação dos pães” prometida pelo liberal.
Cotrim Figueiredo começou por assinalar que os problemas do país “são de cariz sobretudo executivo”, recordando que o seu opositor “viabilizou seis orçamentos” enquanto deputado do PCP, num período em que “a imigração era um tema e passou a ser um problema”, e que a habitação evoluiu “de problema para crise” e a saúde “para caos”. De seguida, o candidato apoiado pela Iniciativa Liberal (IL) recuperou a ideia de que o PCP terá ponderado um referendo sobre a saída do euro e da União Europeia, ideia que António Filipe se prontificou a rejeitar. “O que defendi é que a ratificação dos tratados devia ter sido por referendo”, disse.
Na discussão da saúde, Cotrim insistiu que a degradação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) explica porque este é “o período da história em que mais cresceram os privados”, defendendo um sistema assente em incentivos que “alinhem os interesses dos doentes com os prestadores”, ao que António Filipe respondeu que o estado do SNS era “resultado de políticas neoliberais”, defendendo um investimento claro no SNS. Cotrim discordou da premissa e defendeu a “escolha livre” dos cidadãos. Para o ex-deputado do PCP, essa visão é um “milagre da multiplicação dos pães”, sobretudo porque “defende que os mais ricos paguem menos impostos”.
O pacote laboral que o actual Governo quer aprovar também entrou no debate e uniu e separou os candidatos em doses equivalentes. António Filipe declarou que as “empresas não têm razões para se assustar” e reiterou a importância da contratação colectiva, acusando o Governo de querer “tornar a precarização eterna”. Para o candidato, o aumento de salários na função pública é através do OE e no privado é “por via da contratação colectiva” e que “é por via da representação sindical que os trabalhadores conseguem valer os seus direitos”.
Cotrim discordou de quase tudo, menos de uma parte. Para o eurodeputado da IL, o pacote laboral tem medidas “excessivas” e que prejudicam “uma política de natalidade”, nomeadamente o risco de pais de filhos até 12 anos poderem perder o direito de recusa de trabalho ao fim-de-semana e as limitações da licença para amamentação. Mas logo veio o confronto. António Filipe voltou aos “neoliberais” para o acusar de tentar “querer vender ideias bafientas do século XIX”, ao que Cotrim respondeu que “ideias bafientas vindo de António Filipe é ofensivo”.
Nas greves e nos serviços mínimos, a distância voltou a alargar-se. Enquanto António Filipe defendeu que “nenhum trabalhador faz greve por desporto” e que a proposta governamental procura transformar “serviços mínimos em máximos” e atacar o direito à greve, Cotrim respondeu que “nenhum empregador paga mal por desporto”.
No dossier da defesa, voltaram a surgir algumas das raras convergências. Cotrim considerou que não faz sentido apostar no serviço militar obrigatório num contexto em que “a componente tecnológica tem evoluído loucamente” e António Filipe respondeu que o problema está na falta de atractividade das carreiras. Quanto ao eventual accionamento do artigo 5.º da NATO – o tratado estipula que “as partes concordam que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas” – ambos defenderam prudência: Filipe remeteu a decisão para o Governo e para a análise “em concreto”, enquanto Cotrim sublinhou que “nenhum Presidente da República irá levianamente enviar tropas”, mas lembrou que Portugal tem obrigações a cumprir no quadro da Aliança.
O debate terminou como começou: com divergência acentuada, mas também com um reconhecimento mútuo, embora tímido. “Surpreendentemente, estamos de acordo em algumas partes”, admitiu Cotrim. “É uma evolução”, respondeu António Filipe.