O gás parecia já não ser o mesmo, a senda de bons resultados pouco ou nada saiu beliscada com isso. É certo que as deslocações a Nottingham e a Utrecht mostraram problemas novos sem as velhas soluções mas, entre a recuperação física de algumas unidades nevrálgicas na dinâmica coletiva, o FC Porto foi conseguindo dar prolongamento à dinâmica vencedora introduzida com Francesco Farioli no comando. Voltaram os triunfos convincentes, regressaram os duelos sem golos sofridos, aumentaram as respostas aos “dilemas” dos blocos mais baixos com o objetivo de tirar espaço aos azuis e brancos no último terço. A par disso, o treinador que chegou do Ajax estava prestes a chegar ao número redondo das 100 vitórias na carreira, algo que podia ser alcançado na receção ao Estoril no Dragão após o triunfo com o Nice e antes de um dérbi na Liga.

FC Porto-Estoril. Dragões procuram quarto triunfo seguido na Liga para reforçarem liderança antes do dérbi

“É sempre bom ganhar, é importante e é também a prioridade. Para seguirmos na direção que queremos, sim, que seja um dia importante para todos nós”, apontara o italiano na antecâmara do jogo, secundarizando a possibilidade de atingir esse 100.º sucesso em detrimento dos objetivos da equipa. “Tivemos pouco tempo de descanso, há dois ou três jogadores com problemas físicos mas vamos fazer as devidas avaliações. Temos pela frente um jogo difícil, o Estoril está num bom momento. Podem defender de três, quatro ou cinco formas diferentes, têm um ataque bastante fluido mas tentámos prever todos os cenários. Mais importante: temos um grupo dentro das dinâmicas certas, que só precisa ter a melhor mentalidades”, acrescentara, entre elogios à ligação entre jogadores que se viu também no facto de Gabri Veiga ter respeitado a hierarquia na marcação de grandes penalidades que tem Samu como número 1, passando ao lado da hipótese de hat-trick.

“É importante partilhar as oportunidades. No papel o Samu era o marcador de penáltis, penso que o Gabri respeitou isso e deu-lhe a bola para marcar. Claro que toda a gente quer marcar mas a prioridade é sermos uma equipa. Nisso o Gabri é também um exemplo, não só pelo gesto mas pela forma como tem jogado, como tem contribuído ofensivamente e ao nível defensivo para o rendimento de toda a equipa. Já tinha dito que temos um grande exemplo de outros jogadores, como o Pepê, o Rodrigo Mora ou oBorja… Isso é fantástico, é por onde temos de ir e é uma representação importante do que é o ADN do FC Porto. Rotatividade? Quando estamos num clube como o FC Porto sabemos que vamos ter mais do que 50 jogos ao longo de toda a temporada e temos de preparar os jogadores para estarem expostos a esses cenários”, salientara o técnico.

No entanto, a conferência antes da receção ao Estoril acabou por ser dominada pelas palavras do presidente do FC Porto, André Villas-Boas, que a par das críticas aos critérios de arbitragem colocou também os dragões como “alvo” a abater na definição do calendário de jogos da Primeira Liga entre uma alegada aliança entre os rivais Benfica e Sporting. “Incrivelmente, e contra uma votação de 2-6, o FC Porto vê-se obrigado a jogar no dia 15, com o Estrela, no dia 18, com o FC Famalicão para a Taça, e no dia 22 com o Alverca. Tudo normal não fosse o facto de o Sporting ter conseguido convencer os demais presentes a dois dias adicionais de descanso antes, joga no sábado dia 13 de dezembro, na quinta-feira dia 18 para a Taça, e recebe um outro dia adicional de descanso depois, pois só joga de novo na terça-feira dia 23. É esta a equidade que é promovida pela Liga depois do famoso episódio sucedido com a marcação do jogo em Arouca. Uma forma de atuar onde o mesmo clube sai sempre prejudicado e onde as santas alianças se revelam despudoradamente. Ainda vamos ver o dérbi de Lisboa terminar com três pontos para cada um”, escreveu.

“Como sabem, as armadilhas são coisas com as quais não se está a contar, senão não eram armadilhas. Isto é algo que de alguma forma temos de manter o nosso sistema em alerta para reagir e conseguir encontrar as respostas adequadas. Depois há outras coisas que são bastante evidentes, uma é o calendário, que é algo que estou a ficar aborrecido de comentar todos os dias mas infelizmente é um tema que continua aí. Estou muito contente com o facto de ter um presidente tão próximo, que está tão por dentro da atividade diária do clube como ele tem feito. Penso que ele está a fazer o melhor pelo clube, a esforçar-se e a tentar com que a competição seja mais justa para todos. Que é algo pelo qual todos nós e todos os que gostam de futebol devem procurar”, referiu a esse propósito Francesco Farioli, colocando-se ao lado do líder portista.

Com mais ou menos razão, percebe-se a preocupação e o jogo com o Estoril foi um exemplo paradigmático daquele que pode ser um dos maiores adversários do FC Porto nesta fase da época: a parte física. A forma como a intensidade, a agressividade e as zonas de pressão altas são imagens de marca da equipa de Farioli também tendem a passar uma fatura nos encontros com menos inspiração individual, como se viu mais uma vez com os dragões a quererem fechar mais cedo o jogo mas a ficarem com a vantagem mínima para ficarem isolados no topo antes do dérbi lisboeta na Luz. Valeu o golo cheio de oportunismo de William Gomes, o voluntarismo de Pablo Rosario no meio-campo, o tanque de Froholdt enquanto teve gasolina e a cabeça de Bednarek, o gigante imperial na defesa que teve um corte determinante na área em cima do minuto 90.

Ficha de jogo

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FC Porto-Estoril, 1-0

12.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: André Narciso (AF Setúbal)

FC Porto: Diogo Costa; Alberto Costa (Martim Fernandes, 59′), Bednarek, Kiwior, Francisco Moura (Zaidu, 46′); Pablo Rosario, Froholdt, Rodrigo Mora (Gabri Veiga, 59′); William Gomes, Borja Sainz (Eustáquio, 82′) e Samu (Luuk de Jong, 68′)

Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, Prpic, Pepê e Alarcón

Treinador: Francesco Farioli

Estoril: Joel Robles; Ricard Sánchez (Pedro Carvalho, 56′), Boma, Bacher, Pedro Amaral (Gonçalo Costa, 56′); Holsgrove, Jandro (Ferro, 66′), João Carvalho; Rafik Guitane, André Lacximicant (Alejandro Marqués, 75′) e Begraoui

Suplentes não utilizados: Martin Turk, Luís Fernandes, Patrick Carreiro, Tiago Parente e Tiago Brito

Treinador: Ian Cathro

Golo: William Gomes (8′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Holsgrove (12′), Ricard Sánchez (38′), Francisco Moura (42′) e Joel Robles (53′)

As entradas de Rodrigo Mora, William Gomes e Borja Sainz de início mostravam ao que vinha o FC Porto, com opções a assumir uma maior largura no jogo ofensivo e com a possibilidade de colocar a coqueluche de 18 anos a pisar terrenos mais próximos de Samu mesmo começando a partir da meia esquerda. No entanto, o primeiro sinal de perigo acabou por pertencer ao Estoril, com Begraoui a ser lançado na profundidade após um erro dos dragões num livre, Diogo Costa a sair mal da baliza e o marroquino nascido em França a tentar um chapéu de longe de baliza aberta que passou ao lado (5′). A ameaça tinha sido deixada, a resposta foi letal: num primeiro lance, Samu ganhou na profundidade à defesa canarinha, passou por Robles, tocou para a baliza mas a jogada foi anulada por fora de jogo (7′); logo de seguida, na marcação desse livre indireto, Holsgrove teve um passe errado, William Gomes intercetou em zona alta e rematou cruzado para o 1-0 (8′).

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