O que Bruna Alves sente, de cada vez que se lembra do dia 23 de julho de 2022, sentada a uma mesa da área de restauração do NorteShopping, é que “bateu à porta do céu, mas não era a hora de entrar”. Descreve o momento com total realismo, os batimentos cardíacos a diminuir lentamente, o ar de pânico de João, ela a querer agarrar-se à vida. Aqueles segundos foram dramáticos, mas na opinião da equipa médica, não necessariamente os mais perigosos para a sua sobrevivência. O hospital contactou-a depois de ver o alerta registado (através do tal chip que lhe implantara), e um dia depois estava na consulta. “Disseram-me que o meu coração tinha estado em pausa durante 12 segundos, e que se estivesse mais dois, precisava de ser reanimada na hora. Ou então morria.”
Nessa altura, Bruna já percorrera vários médicos, desde que, em 2020, começaram os desmaios, as tonturas, o cansaço súbito. Antes de ser encaminhada para as consultas de cardiologia da ULS da Região de Leiria, já consultara um médico no privado, que lhe diagnosticara “a doença do nó sinusal”, sem mais explicações nem medicação. Uma vez feitos tantos exames, quando chegou ao HSC, em Lisboa, tinha esperança de ficar boa, de lhe encontrarem “o defeito no coração, para o poder tratar”.
Desde a infância e adolescência que sempre se lembra de “não conseguir fazer as provas de resistência nas aulas de educação física”, porque se cansava demasiado. Mas a vida correu, sem percalços, até 2020. Era o tempo da pandemia e isso implicava não poder levar acompanhantes às consultas. Foi talvez o que mais a marcou. Quando recebeu o CDI ainda as regras se faziam à luz da Covid. Bruna lembra-se da sensação da solidão que sentiu. Mas o pior foi mesmo quando acordou da operação: “Foi o momento mais assustador da minha vida. Acordei cheia de dores. E tal como já tinha adormecido muito nervosa, acordei igual. Não podia mexer a perna direita, porque era onde tinha sido a entrada para o cateterismo [procedimento médico invasivo que ajuda a diagnosticar e a tratar doenças de coração], antes da operação. Quando me tentei levantar, sentia-me tão mal, que acabei por desmaiar. Lembro-me de acordar depois com uma equipa imensa à minha volta”. Nessa altura, o médico disse-lhe que provavelmente tinha sido um ataque de ansiedade.
Ainda no hospital, Bruna percebeu as limitações que teria pela frente, e que durante vários meses a impediram de trabalhar, ou mesmo de fazer a sua vida normal em casa. Primeiro eram os pensos, as ligaduras, os fios e cabos que a ligavam a máquinas várias; depois foi a debilidade física que se anunciou. “Ainda hoje não consigo bem levantar o braço esquerdo”, conta, num domingo de sol que anuncia festejos de São Martinho na aldeia de Torrinhas, na casa que foi dos avós de João, agora recuperada pelo casal.
A chegada de Benedita está prevista para 9 de janeiro de 2026, na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. “A minha primeira preocupação foi saber se podia ter um parto normal, e se havia a tal equipa de cardiologia de que o dr. Pedro me falou. E garantem-me que sim, que está praticamente ao lado, no Hospital da Universidade”. As duas estruturas fazem parte da mesma ULS de Coimbra.
Com o tempo, recuperou muita da condição física, ainda que não na totalidade. O CDI ainda nunca funcionou, “embora já tenha estado perto”. Mas agora sabe que se as tonturas e desmaios se prolongarem, há um mecanismo que lhe salva a vida.
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