CANETA EMAGRECEDORA REBOTE

 

As injeções semanais conhecidas como “canetas emagrecedoras” (Mounjaro, Wegovy, Ozempic e outras da mesma classe) viraram febre no Brasil. Em poucos meses é comum ver perdas de 10, 15 ou até 20 kg. O problema é que, quando a pessoa interrompe o uso, grande parte desse peso costuma voltar e em alguns casos, com juros.

 

Médicos endocrinologistas explicam que o efeito rebote não é culpa do medicamento em si, mas da forma como ele é usado. “A caneta reduz a fome e facilita a adesão à dieta, mas não cura a obesidade. Se o paciente não aproveitar esse período para criar novos hábitos, o corpo volta ao que era antes, ou pior”, resume o endocrinologista Renato Zilli, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

 

Quando a caneta é realmente indicada

De acordo com a SBEM, o tratamento só deve ser iniciado em dois grupos:

– Pessoas com obesidade (IMC ≥ 30)
– Pessoas com sobrepeso (IMC ≥ 27) que já tenham doenças relacionadas, como diabetes tipo 2, hipertensão ou apneia do sono

 

Além disso, o uso precisa de receita médica, acompanhamento regular e medicamento registrado na Anvisa. Comprar versões contrabandeadas ou “genéricos” de farmácias de manipulação é arriscado e pode trazer consequências graves à saúde.

 

 Por que o peso volta?

Durante o emagrecimento, o organismo passa por adaptações naturais de defesa:

– O metabolismo basal cai (o corpo gasta menos energia em repouso)
– Hormônios da fome (grelina) voltam com força total
– A sensação de saciedade desaparece rapidamente quando o remédio sai do organismo

 

Resultado: se a pessoa volta a comer como antes, o ganho de peso é rápido. Estudos mostram que, sem mudança de estilo de vida, até 80% do peso perdido pode ser recuperado no primeiro ano após a suspensão.

 

Como fazer o desmame sem engordar tudo de novo

Endocrinologistas estão adotando protocolos mais cuidadosos de retirada:

1. Redução gradual da dose ao longo de meses (nunca parar de repente)
2. Aumento da ingestão de proteínas (mínimo 1,2 g por kg de peso) para preservar músculo
3. Treino de força pelo menos 3 vezes por semana
4. Acompanhamento mais frequente nos primeiros 12 meses após o fim do medicamento
5. Monitoramento de composição corporal (bioimpedância) a cada 3 meses

 

“Para alguns pacientes com obesidade grave, o uso contínuo ou por longos períodos acaba sendo a melhor estratégia, exatamente como acontece com medicamentos para pressão ou colesterol”, explica a endocrinologista Andressa Di Filippo, da Santa Casa de São José dos Campos.

 

A lição que fica

A caneta é uma ferramenta poderosa, mas não é mágica. Ela abre uma janela de oportunidade para a pessoa aprender a comer melhor, se movimentar e lidar com as emoções sem apelar para a comida. Quem aproveita esse tempo mantém geralmente o peso perdido mesmo após parar o remédio. Quem usa apenas como “atalho” costuma voltar à estaca zero ou além.

 

Resumo dos médicos: emagrecer com a caneta é relativamente fácil; manter o peso baixo é que exige trabalho de verdade.