Uma das maiores crises diplomáticas das últimas décadas entre Japão e República Popular da China, iniciada com as declarações da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sobre Taiwan, conheceu nesta terça-feira mais um perigoso capítulo, depois de um encontro tenso entre navios dos dois países perto de um conjunto de ilhas, no mar Oriental da China, que são reivindicadas por ambos os lados.

O incidente nas ilhas Senkaku, controladas pelo Japão, e a que Pequim chama Diaoyu, envolveu um barco de pesca japonês e duas embarcações da Guarda Costeira chinesa. Acusando a outra parte de violação das suas águas territoriais, as autoridades marítimas dos países rivais dizem que evitaram um confronto, mas divergem, no entanto, na hora de explicar o que aconteceu.

Através de um porta-voz, citado pelo South China Morning Post, a Guarda Costeira da China diz que expulsou o barco japonês, insistiu que as “Diaoyu e os seus ilhéus são parte inerente do território chinês” e exigiu ao Japão que “acabe imediatamente com todas as violações e actividades provocadoras naquelas águas”.


Já o Japão garantiu que foi a sua Guarda Costeira, através de uma outra embarcação que chegou, entretanto, quem interceptou e afastou os navios chineses. Citada pela agência noticiosa japonesa Kyodo, a autoridade marítima japonesa acrescentou que foram avistados mais dois navios da Guarda Costeira chinesa perto das águas territoriais das Senkaku.

Pequim e Tóquio atravessam um dos períodos mais negativos do seu relacionamento bilateral, depois de Takaichi, a nova líder nacionalista nipónica, ter admitido, há cerca de três semanas, que autorizaria uma intervenção militar do seu país em Taiwan, num cenário de ataque da China àquele território que, segundo a primeira-ministra, consubstanciasse uma “ameaça à sobrevivência” do Japão.

Governada de forma autónoma desde 1949, Taiwan é reivindicada pela China como uma província “rebelde”. Pequim acusou Tóquio de “interferência” nos seus “assuntos internos”, está a aconselhar os seus cidadãos a não visitarem o Japão, suspendeu a importação de marisco japonês e prometeu uma “derrota esmagadora” para as forças nipónicas que intervierem no território taiwanês.


Localizadas a cerca de 170 quilómetros a nordeste de Taiwan, as Senkaku/Diaoyu são compostas por cinco ilhas e três recifes e estão inabitadas. Controladas efectivamente pelo Japão, acredita-se que as águas circundantes do território sejam ricas em petróleo e gás natural.

Há cerca de seis meses, o Japão acusou a China de ter mobilizado navios de patrulha para as imediações das ilhas disputadas durante 216 dias consecutivos, diz o South China Morning Post. Ao longo de 2024, acrescenta o jornal de Hong Kong, citando as autoridades japonesas, houve barcos chineses naquelas águas durante 215 dias, num total de 350 viagens em redor das ilhas.

As Senkaku/Diaoyu estão a apenas 150 quilómetros de distância de Yonaguni, o território japonês geograficamente mais próximo de Taiwan (cerca de 100 quilómetros) e onde o ministro da Defesa nipónico, Shinjiro Koizumi, disse, na semana passada, que vão ser instalados mísseis terra-ar. Em resposta, o Governo chinês acusou o Japão de estar a “provocar um confronto militar” entre as duas potências.

A crise entre China e Japão tem sido acompanhada bem de perto pelos Estados Unidos, ainda que sem tomadas de posição públicas dos seus principais dirigentes políticos. Depois de ter conversado com Xi Jinping ao telefone, e acordado uma visita a Pequim em Abril, Donald Trump ligou a Takaichi e, segundo fontes japonesas e norte-americanas, aconselhou a primeira-ministra do Japão a não agravar as tensões com a China.