Resumo
Empregos manuais ganham atractividade com a IA
Cresce a procura por cursos de construção em escolas profissionais
Jovens planeiam carreiras de forma mais estratégica

Num mercado laboral onde a inteligência artificial (IA) está a transformar e, por vezes, a substituir empregos, a estudante Maryna Yaroshenko queria encontrar uma carreira à prova de futuro, que oferecesse estabilidade a longo prazo.

Tal como um número crescente de jovens, Maryna​ optou por uma profissão técnica e está agora a formar-se como canalizadora. “É algo que a IA não vai conseguir substituir”, disse Yaroshenko, natural da Ucrânia e aluna do City of Westminster College (CWC), em Londres.

Os empregos de colarinho branco são vistos como mais vulneráveis à automação e à IA do que o trabalho manual. No Reino Unido, um em cada seis empregadores prevê que o uso de ferramentas de IA lhes permita reduzir pessoal nos próximos 12 meses, segundo um inquérito realizado em Novembro pelo Chartered Institute of Personnel and Development, uma instituição profissional de recursos humanos.

Yaroshenko considera a IA uma ferramenta útil, mas não capaz de substituir a componente prática da canalização, um sector que muitos evitam devido às exigências físicas e ao estigma persistente associado a profissões como electricidade, carpintaria ou soldadura.

Cresce a procura por cursos práticos

O CWC, parte do United Colleges Group, é uma instituição de ensino e formação profissional, e não uma universidade. Nos últimos três anos, registou um aumento de 9,6% nas inscrições em cursos de engenharia, construção e ambiente construído, crescimento que o CEO Stephen Davis atribui em parte ao avanço da IA e às preocupações dos alunos com o custo da universidade.

Alguns jovens estão a evitar a universidade para não acumular milhares de libras em dívida.

“Há muita ansiedade entre os jovens neste momento, preocupados que os seus empregos sejam automatizados”, disse Bouke Klein Teeselink, docente e investigador em IA no King’s College, em Londres.

O estudo de Teeselink, publicado em Outubro, mostrou que os cortes de pessoal impulsionados pela IA afectam desproporcionadamente cargos júnior, dificultando a entrada dos jovens na carreira profissional.


Angela Joyce, directora-executiva do Capital City College, também em Londres, disse ter registado um forte aumento do interesse em cursos de construção, canalização, hotelaria e outras profissões técnicas.

“Isto mostra que mais pessoas reconhecem o valor de se tornarem profissionais qualificados”, afirmou Joyce, acrescentando que, para alguns, os cursos de aprendizagem podem oferecer maior potencial de rendimento do que uma licenciatura.

Davis sublinhou que a IA tem levado não só jovens, mas também adultos em transição de carreira, a pensar de forma mais estratégica, procurando segurança no emprego e salários mais elevados. Davis acrescentou que as profissões técnicas oferecem frequentemente mais oportunidades para abrir o próprio negócio, aumentando o potencial de rendimento.

Nova geração de profissionais

De regresso à oficina de canalização, Yaroshenko afirmou que outro motivo para permanecer numa profissão técnica a longo prazo é que a força de trabalho actual está a envelhecer e a procura por uma nova geração de profissionais qualificados continuará elevada.

A estudante acrescentou que escolheu um curso profissional em vez da universidade porque queria ganhar experiência prática o mais rapidamente possível.

As inscrições em cursos nas universidades do Reino Unido registaram uma ligeira queda de 1,1% em 2023/24 em relação ao ano académico anterior, o primeiro decréscimo anual em quase uma década.

Teeselink afirmou que ainda demorará algum tempo até que robôs canalizadores assumam o trabalho, por ser uma tarefa “muito intrincada”. Davis frisou que, apesar da rápida evolução da robótica, os alunos de cursos como canalização estão bem posicionados. “Por vezes, os canalizadores têm de enfiar as mãos na sanita para a desbloquear… e ainda não conheci nenhum robô que faça isso por nós”, disse Davis.