Juan Orlando Hernández, antigo Presidente hondurenho condenado em 2024 a 45 anos de cadeia por tráfico de droga, saiu esta terça-feira de uma prisão de alta segurança no estado norte-americano da Virgínia Ocidental depois de Donald Trump lhe ter concedido um indulto. A libertação foi anunciada pela defesa do antigo líder das Honduras, citada pelos jornais New York Times e Washington Post.
Trump tinha anunciado a intenção de conceder um “perdão completo e por inteiro” a Hernández na sexta-feira, escassas horas depois de ter recebido uma carta do antigo Presidente hondurenho em que este se apresentou como uma vítima de “perseguição política” por parte da anterior administração democrata.
“Tal como o Presidente Trump, eu sofri perseguição política por parte da Administração Biden-Harris, não por qualquer infracção, mas por razões políticas”, alegou Hernández na missiva, que foi entregue ao Presidente norte-americano por Roger Stone, conselheiro político de longa data do republicano. Na carta, que inclui diversos elogios a Trump, o antigo líder hondurenho apresenta-se ainda como um aliado do movimento MAGA e de Israel na América Central, e como um opositor da Venezuela de Nicolás Maduro.
A justiça norte-americana, por seu turno, caracteriza Hernández como um dos protagonistas de “um dos maiores e mais violentos esquemas de tráfico de droga do mundo”, responsável pela entrada de “400 toneladas de cocaína” nos EUA. Terá recebido milhões de dólares em subornos de traficantes como Joaquín Guzman (“El Chapo”, antigo líder do cartel mexicano de Sinaloa) para permitir a passagem de estupefacientes através das Honduras. O juiz do caso, P. Kevin Castel, descreveu em 2024 o antigo chefe de Estado como um homem de “dupla face” que se apresentava ao mundo como um adversário do crime enquanto transformava as Honduras num narcoestado.
Presidente daquele país da América Central entre 2014 e 2022, Hernández foi extraditado nesse ano para os EUA, já depois de um irmão seu, Tony, ter sido detido em Miami por suspeitas de ligações ao narcotráfico. A família sempre se declarou vítima de um complô da “esquerda radical”.
A libertação de Hernández, agora, acontece ao mesmo tempo que a Administração Trump leva a cabo uma campanha militar contra alegados alvos do narcotráfico nas Caraíbas, com o bombardeamento de embarcações e a crescente ameaça de acção armada contra o regime venezuelano, que Washington acusa de participação no tráfico internacional de droga.
Coincide, também, com uma campanha de ingerência norte-americana nas eleições presidenciais hondurenhas. Hernández é aliado e membro do partido de Nasry Asfura, candidato expressamente apoiado por Trump, que acenou com consequências políticas e económicas para as Honduras em caso de derrota do ex-autarca da capital Tegucigalpa.
Durante a tarde desta terça-feira, Asfura liderava a contagem de votos das eleições de domingo por apenas 515 boletins, à frente de Salvador Nasralla, outro candidato conservador. Rixi Moncada, candidata da esquerda no poder, seguia num distante terceiro lugar. Na véspera, Trump acusou as autoridades eleitorais hondurenhas de manipularem o apuramento dos votos, sem apresentar provas, e ameaçou-as, declarando que estas “irão pagar” pela alegada interferência.
O indulto a Hernández, notável pelas ramificações políticas do caso, não é contudo o primeiro perdão concedido por Trump, neste seu segundo mandato, a indivíduos condenados por tráfico de droga. Logo em Janeiro, o Presidente norte-americano concedeu um “perdão total e incondicional” a Ross Ulbricht, fundador do site de comércio ilegal online Silk Road, por onde passaram negócios de droga no valor de mais de 200 mil milhões de dólares. Ulbricht, condenado a prisão perpétua em 2015, foi transformado posteriormente numa espécie de ‘mártir’ por elementos de movimentos libertários com influência em Silicon Valley, e por entusiastas das criptomoedas, pelo facto de o Silk Road ter sido um dos primeiros serviços do mundo a permitir pagamentos com bitcoin.