O Afeganistão vive atualmente num total obscurantismo imposto pelo regime talibã. O dia a dia dos afegãos é negro, tal como as vestes dos fundamentalistas islâmicos que tomaram conta do país em agosto de 2021, depois da saída atabalhoada das tropas norte-americanas. O grupo talibã é considerado uma organização terrorista pela União Europeia, Estados Unidos, Rússia e Emirados Árabes Unidos, entre muitos outros países.
Trata-se de um regime anacrónico, onde o sistema judicial e legal foi desmantelado e substituído por uma interpretação rígida da Sharia, a lei islâmica baseada no Alcorão.
Desde que chegaram ao poder, os talibãs emitiram mais de 70 ordens restritivas contra as mulheres, negando-lhes a educação, o trabalho e a assistência médica. É o único país do mundo onde o ensino secundário e superior é estritamente proibido a mulheres e raparigas com mais de 12 anos, o que significa que cerca de 2,5 milhões de raparigas estão privadas do seu direito à educação. Em 2022, o Ministério de Promoção da Virtude e Prevenção do Vício proibiu a presença de mulheres em parques e academias desportivas, o mesmo é dizer que estão impedidas de praticar desporto. A crueldade das suas práticas levou os juristas das ONG internacionais a falarem em apartheid de género.
Quando os talibãs tomaram o poder o sonho do futebol mudou para o modo de sobrevivência. As atletas que ficaram no país tornaram-se alvos do regime e foram aconselhadas a destruir todas as provas da sua atividade desportiva, nomeadamente as camisolas e medalhas, e a fazerem uma vida normal. Existe um ambiente de terror, e quase todos os dias há a notícia de que um atleta foi morto pelos talibãs.
Futebol contra a opressão
A seleção feminina afegã disputou a última partida oficial em 2021 frente ao Qatar e já não aparece no ranking mundial da FIFA. Os talibãs acabaram com a seleção de futebol feminina pela simples razão de que o Islão não permite que as mulheres pratiquem qualquer desporto em que o seu corpo seja exposto, mas não acabaram com a determinação, ousadia e paixão das jogadoras em representar o seu país.
Quatro anos depois de terem fugido do Afeganistão, as jogadoras formaram a equipa de refugiadas Afghan Women United (Mulheres Afegãs Unidas), que participou no FIFA Unites Women’s Series. O regresso das mulheres afegãs a um campo de futebol foi mais do que um jogo, foi uma vitória dos direitos humanos no campo desportivo. O facto de competirem como equipa de refugiadas significa que não têm o pleno direito de representar o seu país, mas podem levar a bandeira do Afeganistão. Cabe agora ao sistema desportivo internacional ultrapassar a situação, e existe essa vontade.
Sem o reconhecimento da federação afegã de futebol, que está alinhada com o governo talibã, a FIFA tomou uma decisão muito significativa e sem precedentes de permitir que as jogadoras participassem num torneio internacional, ou seja, passou por cima da autonomia da federação perante a evidente violação dos direitos humanos. O órgão que gere o futebol mundial aprovou ainda uma estratégia de apoio às jogadoras que estão no exílio e a participação da equipa em outros torneios.
Desde então, a FIFA mobilizou recursos financeiros significativos, criou uma equipa dedicada à preparação física e nutrição das atletas, disponibilizou um psicólogo e colocou à disposição das jogadoras instalações modernas com o objetivo de oferecer as mesmas condições de preparação de qualquer outra equipa de alto nível. Além disso, a segurança das atletas foi também tida em atenção.
O projeto Afghan Women United começou em maio deste ano com a fase de observação das 70 jogadoras que competiam na liga afegã. Esses testes realizaram-se na Austrália e em Inglaterra. A treinadora Pauline Hamill convocou 23 atletas, sendo 14 mulheres residentes na Austrália, cinco no Reino Unido, duas em Itália e duas em Portugal, que são Maryam Karimyar (FC São Romão) e Aziza Zada (Esposende). Estavam criadas as condições para participar no torneio FIFA Unites Women’s Series, que contou também com a presença do Chade, que venceu a competição, Tunísia e Líbia, mas ainda assim surgiram obstáculos. Os Emirados Árabes Unidos recusaram vistos de entrada às jogadoras afegãs e a solução foi organizar o torneio em Marrocos.
Foram muitos sacrifícios e uma luta coletiva para participar na competição, o que demonstra bem a força das mulheres afegãs e o que elas podem alcançar, mesmo em circunstâncias devastadoras. Quando viram a sua bandeira hasteada e ouviram o hino do país as lágrimas correram pelo rosto, agora livre, das jogadoras. «Estar num palco internacional após quatro anos de exílio é o momento mais significativo da minha vida e, seguramente, também para as outras meninas», fez questão de dizer a capitã Fatima Haidari. A jogadora explicou o significado de voltar a jogar futebol: «Quando entro em campo, tudo o mais desaparece automaticamente da minha mente. Quando treino e jogo, uma chama acende-se dentro de mim. Sinto que jogo por todas as meninas que não têm essa possibilidade».
Para a história fica o primeiro golo marcado por Manozh Noori, ao Chade. «Foi um momento muito especial para todas nós. Dedico este golo às pessoas no Afeganistão, porque merecem ser felizes», disse. Igualmente marcante a primeira a vitória, com goleada (7-0) à Líbia. «Estávamos à espera e a sonhar com esta vitória», lembrou Fatima Haidari. «Tivemos muitas experiências maravilhosas. Houve uma verdadeira mistura de emoções na equipa. Chorei por estarmos de volta depois de muitos anos e depois de tudo aquilo que sofremos. Dentro do campo, aprendemos muito, estamos a crescer e seremos nós a ensinar a próxima geração de jogadoras do Afeganistão», salientou a capitã.
A Afghan Women United saiu de Marrocos com a medalha de bronze e com reconhecimento do presidente da FIFA, Gianni Infantino. «A primeira equipa de refugiadas afegãs tem um significado muito especial, não só para as 23 jogadoras, mas também para o futebol feminino em geral. É o início de uma bela história que vocês estão a escrever», sublinhou.
Esta emancipação da mulher afegã ainda está só no início. «Continuaremos a lutar, porque não se trata apenas de nós, trata-se de ser uma voz de todas as mulheres», disse a defesa central Mural Sadat. A guarda-redes Fatima Yousufi voltou a competir. «Foi uma grande mensagem, mostrámos aos talibãs que somos imparáveis», disse na altura.
Fuga aos talibãs
A presença neste torneio internacional só foi possível porque, a 24 de agosto de 2021, as jogadoras e as suas famílias, num total de 80 pessoas, conseguiram fugir dos talibãs num verdadeiro teste de resistência e determinação. Foi um resgate quase cinematográfico que contou com a colaboração dos militares americanos, da FIFPRO, do Centre for Sports and Rights e da ministra das Relações Exteriores da Austrália, Marise Payne, que se envolveu diretamente na localização das jogadoras e no planeamento da fuga para a Austrália num avião militar. As atletas passaram quatro dias no aeroporto de Cabul à espera dos vistos de emergência providenciados pelo governo australiano. «Consegui escapar deles e chegar aos portões do aeroporto, mas a minha família foi espancada pelos talibãs. Foi muito mau», recordou na altura Fatima Yousufi.