Quando se contrata um avançado por dinheiro a sério, há um peso de expectativas que não se resume aos milhões que foram gastos na sua aquisição. A sombra do antecessor também pesa, assim como a urgência de alguém que marque golos. Vangelis Pavlidis e Luis Suárez, os dois melhores marcadores da I Liga portuguesa em 2025-26, chegaram aos respectivos clubes com um peso semelhante no custo, mas com missões diferentes. Pavlidis chegou ao Benfica para fazer aquilo que quatro pontas-de-lança não conseguiram na época anterior, Suárez entrou no Sporting para minorar a perda de um goleador inquestionável. Nos dois casos, parece indesmentível que foram bons investimentos.
Na próxima sexta-feira, Benfica e Sporting defrontam-se na Luz e é uma certeza que o grego e o colombiano estarão em campo. Pavlidis já leva 16 golos na presente temporada (10 no campeonato), Suárez chegou no último domingo aos 12 (nove no campeonato), e assumiram-se como peças importantes nas estratégias de, respectivamente, José Mourinho e Rui Borges. Mas com uma diferença: o Benfica dificilmente passa sem Pavlidis, o Sporting tem encontrado o caminho do golo sem Suárez.
O Benfica já leva mais jogos disputados esta época, por força de ter disputado as pré-eliminatórias da Champions. Em 25 jogos realizados, os “encarnados” marcaram 42 golos, o que dá uma média de 1,68 golos por jogo. Destes 42 golos, 16 foram de Pavlidis, 38%, sendo que os seus golos já valeram cinco vitórias, a última das quais frente ao Nacional, no Funchal – o grego marcou o 1-2 já no tempo de compensação. E quem é o segundo melhor marcador do Benfica esta época? A grande distância, Franjo Ivanovic, com apenas quatro golos, e, depois, Sudakov, com três.
Quanto ao Sporting, tem um ataque mais saudável, diverso e menos dependente do seu ponta-de-lança habitual. Os “leões” já levam 53 golos em 21 jogos (média superior a 2,5 golos por jogo), e os 12 de Suárez representam 22,64% – por duas vezes os seus golos valeram vitórias. Ao contrário do que acontece no Benfica, o Sporting pode contar com mais gente para marcar golos, para além do colombiano – Pedro Gonçalves já vai nos nove, Trincão está nos oito.
Pavlidis demorou, Suárez foi imediato
Pavlidis chegou ao Benfica no Verão de 2024, contratado ao AZ Alkmaar por 18 milhões, e pode dizer-se que os “encarnados” tinham passado a época anterior com um problema no ataque. O Benfica teve quatro pontas-de-lança (Arthur Cabral, Tengstedt, Marcos Leonardo e Musa) e, no total, os quatro marcaram 28 – dois deles, Cabral e Tengstedt, fizeram a época toda, Musa saiu a meio, Leonardo entrou a meio, e nenhum deles mora na Luz actualmente. O grego resolveu o problema do ponta-de-lança, mas demorou a arrancar – marcou apenas dois golos nos primeiros 12 jogos, terminou a época com 30, mais 12 assistências.
Pavlidis já era um goleador de créditos firmados por várias épocas de rendimento na Eredivisie. Já Suárez vinha com o asterisco de ser um goleador na segunda divisão espanhola – marcara 31 golos pelo Almeria em 2024-25 – e tinha a missão impossível de fazer esquecer o extraterrestre Viktor Gyökeres e os 97 golos que marcou em duas épocas de título em Alvalade. É muito provável que não chegue aos números do sueco, mas o seu rendimento é bastante promissor – e não é ele o marcador prioritário dos penáltis, apesar de já ter marcado três. No Benfica, é Pavlidis quem tem esse papel – já marcou sete da marca dos 11 metros.
Já percebemos que Pavlidis e Suárez são irmãos separados do golo, mas são jogadores parecidos? São ambos destros, mas têm grande competência a rematar com os dois pés – nenhum deles marcou, no entanto, qualquer golo de cabeça esta época. Suárez é mais rematador que Pavlidis (4,58 remates por jogo contra 3,25 do grego) e, segundo a contabilidade do site Zerozero, é o que tem mais oportunidades de golo falhadas (11/7). O colombiano é mais um jogador de um para um (15 dribles contra sete do grego), enquanto Pavlidis é mais certeiro a enquadrar os seus remates com a baliza adversária – apenas 10 dos remates do grego falharam o alvo, enquanto o colombiano rematou 22 vezes para fora.
No domínio das assistências, têm números semelhantes – duas para Suárez, três para Pavlidis. E, pela observação dos jogos, percebe-se que são dois avançados que encaixam na ideia de jogo colectiva, muito associativos, com capacidade de finalizar as jogadas mas também de inventar soluções. A diferença é que Suárez tem mais companhia e Pavlidis, que até começou a época a marcar ao Sporting um golo que valeu a Supertaça, está mais sozinho.