São dez da manhã e o frio faz-se sentir na baixa do Porto. O ponto de encontro é a Praça D. João I, onde Victoria Palmieri e Diogo Castro estão à espera de mais de cem pessoas com sapatilhas de corrida. Desta vez, são eles que vão guiar uma corrida de cinco quilómetros pelo centro do Porto.
O Can Run Club, destinado a jovens dos 18 aos 35 anos, começou em 2023. Matilde Santos corria há pouco mais de dois meses quando o criou, sem saber o que esperar. “Sabia só que não queria correr sozinha”, diz. Dois anos depois, a comunidade que criou no Telegram conta com mais de 2000 pessoas. As corridas, que acontecem todos os sábados às 10h30, juntam entre 100 e 200 pessoas — o recorde foram 300. No final, há um momento de socialização, que Mia, como é conhecida, acha “tão importante para a saúde como a corrida”.
Os participantes vão chegando sozinhos e em duplas. Pelas 10h20, chegam Joana e Cátia. As jovens, de 27 e 26 anos, vieram de Fátima para passar o fim-de-semana no Porto. “Mal marcámos a viagem dissemos logo que tínhamos de vir”, conta Cátia. Já costumam correr em grupo em Fátima e Leiria, “mas nada com esta dimensão”. Descobriram o Can Run Club através do Tiktok, o que Mia diz ser o mais comum. O vídeo da primeira corrida alcançou mais de 35 mil visualizações.
Percurso da corrida do Can Run Club do dia 29 de Novembro de 2025
DR
Durante os primeiros minutos a timidez mantém as pessoas separadas por pequenos grupos, mas quando começa o aquecimento em conjunto já se ouvem as primeiras interacções. “Olá, é a primeira vez que vens?” e “já não te via há imenso tempo!” são os principais quebra-gelos. O inglês e o português misturam-se entre os participantes, sendo que “há sempre muitos estrangeiros que estão de passagem por cá e aparecem”, diz Diogo. Os membros do staff voluntários dão especial atenção aos que chegam sozinhos.
A corrida pela baixa do Porto é “a mais desafiante” e acontece uma vez por mês. Há quatro grupos, do mais rápido para o mais lento: 5min/km; 5,30; 6 e 6,30.
O grupo mais lento é o último a arrancar, pelas 11h da manhã. São cerca de 15 pessoas a correr a este ritmo, algumas pela primeira vez. Perto da Trindade, param à espera de uma parte do grupo, que intercalou corrida e caminhada. “Boa, estás a ir bem”, diz a guia Solange Sampaio à jovem que chegou por último. Uma das participantes quer motivar uma iniciante a voltar: “Esta corrida é a mais difícil, vais ver que em Matosinhos fazes tranquilamente”, garante.
Os membros do staff do Can Run Club orientam o aquecimento na Praça dom João I
Nelson Garrido
Uma forma “mais orgânica” de conhecer pessoas
O objectivo de um run club é, claro, correr, cuidar da saúde, e até treinar para maratonas. Mas não só. Cada vez mais os clubes de corrida são um uma ocasião para fazer amigos. Por vezes, são um primeiro encontro. Victoria Palmieri diz entre risos que “o Strava [aplicação onde se registam corridas] é o novo Tinder”. “Já recebi algumas mensagens por lá.” A arquitecta brasileira, 27 anos, juntou-se ao Can Run Club em 2023, também depois de ver um vídeo no TikTok. “Já fomos viajar juntos, treinamos juntos e fazemos jantares”, conta. Tornou-se membro do staff para “retribuir a esta comunidade”.
Não é surpreendente que estes grupos surjam como forma de conhecer pessoas com interesses semelhantes, num momento em que a frustração com as aplicações de encontros é crescente. Um estudo da Forbes de Maio de 2025 revelou que 78% dos utilizadores sentem “burnout de aplicações de encontros”, sendo que esse sentimento é mais frequente nas mulheres do que nos homens.
Maria Rita Silva começou a correr em grupo no Porto em 2024 e foi aqui que conheceu o namorado. Com 31 anos, admite que “depois de começar a trabalhar pode ser difícil conhecer pessoas”. “Eu não sou nada de aplicações de encontros, por isso achei que isto seria uma boa ideia”, conta ao P3. “Aqui aconteceu tudo naturalmente, é mais orgânico porque à partida já temos algo em comum”, explica.
Em 2023, a Archer, uma aplicação de encontros, desenvolveu um estudo de mercado sobre como a geração Z vê as relações. Um dos líderes da marca, Marcus Lofthouse, disse que “a geração Z namora de uma forma mais parecida à dos nossos pais”.
Em Portugal, os clubes de corrida existem há vários anos e com propósitos e grupos muito diferentes.
Corrida Can Run Club na baixa do Porto
Nelson Garrido
O Miles and Vibes está por todo o país e “tem um carácter mais competitivo, as pessoas vêm mesmo treinar”, explica a fundadora Beatriz Moura. O Miles funciona de formas diferentes em todas as cidades, há um responsável para cada grupo e a frequência depende também da procura. No Porto e em Lisboa há corridas quase todos os dias, incluindo treinos de séries onde a corrida é levada mais a sério, conta Beatriz, para quem organizar o clube é “só um passatempo, uma paixão, por enquanto”.
O Can Run Club tem várias parcerias e um patrocínio. A corrida a que o P3 se juntou é apoiada por uma marca de gelados, que oferece uma bola a todos os participantes. Matilde Santos, psicóloga, despediu-se do emprego na Câmara Municipal do Porto para se dedicar ao clube. “Eu nunca pensei que isto fosse crescer tanto, na primeira vez apareceram três pessoas e eu já achei um sucesso”, confessa.
A preocupação com a saúde e o desporto são uma prioridade para os jovens da geração Z. Um estudo deste ano, desenvolvido pela maior cadeia de ginásios britânica, revelou que 44% dos jovens da gen Z põem a actividade física em primeiro ou segundo lugar na lista de prioridades.
Em Portugal, os dados não mostram um interesse tão grande pelo desporto. Segundo o IPDJ, 73% dos portugueses afirmam nunca praticar exercício físico. Mas Mia Santos e Beatriz Moura dizem que esta preocupação com a saúde pode ser “excessiva e gerar objectivos irrealistas”. A jovem psicóloga considera que é “uma tendência promovida em grande parte pelas redes sociais”, e encara essa realidade com preocupação. Beatriz Moura alerta para a necessidade de ouvir o corpo e não ter pressa. “Eu estou sempre a avisar que têm de ir com calma, que não podem exagerar nos treinos, porque as lesões aparecem.”
De volta ao The Social Hub, no fim da corrida e com um copo de gelado na mão, os participantes parecem conhecer-se há bem mais do que duas horas. Falam sobre o quão difícil foi o percurso, os ritmos que conseguiram, se voltarão. Trocam números e perfis no Strava. Depois, é um passo de cada vez. Vicky lembra-se de como aconteceu tudo de forma natural: “De repente, os meus amigos mais próximos eram todos do run club”.