“A versão mais extrema do supremacismo branco já chegou a Espanha”. Assim descreveu o El País o grupo que nasceu na comunidade valenciana e que foi monitorizado, e agora desmantelado, pela polícia especializada no combate ao terrorismo.
O grupo terá nascido perto de 2018, ano em que apareceu nos radares das autoridades internacionais. Identifica-se como sendo um grupo neonazi que defende a supremacia branca e integra movimentos mais amplos que seguem a corrente aceleracionista.
Não sendo exclusivo da extrema-direita, o aceleracionismo, neste caso, exige aos seus apoiantes que cometam atos de violência racial e terrorista, incluindo ataques a infraestruturas críticas, de modo a promover um rápido colapso da sociedade atual e a implementação de estados liderados por supremacistas brancos.
Apesar de ter sido notado o contacto entre a célula espanhola e o líder internacional nesta operação, o The Base segue um modelo de “resistência sem líderes” com grupos descentralizados e espalhados por vários países que funcionam de forma independente — de forma a não atrair a atenção das autoridades.
“A maioria dos nossos membros são nacionalistas e/ou fascistas, mas também temos alguns nacionalistas brancos comuns. Temos uma forte corrente revolucionária e militante a concorrer para a [A] Base. A maioria dos nossos membros é bastante extremista nesse sentido. Vais entrar, provavelmente, no grupo mais extremista de pessoas pró-brancos que podes encontrar”, chegou a escrever Rinaldo Nazzaro a um potencial recruta, em agosto de 2019.
“Já não há motivos de orgulho para os brancos. Todas as nossas maiores conquistas estão num passado distante. A sociedade hoje é o culminar de tudo o que há de errado com os brancos e indicativo do quanto degenerados. Precisamos de um reset completo através de um fogo purificador da revolução para começar de novo”, escreveu, um ano antes, no antigo Twitter, agora X.
Bem antes de 2018, Nazzaro já acumulava seguidores extremistas nas redes sociais, onde fazia publicações sobre a supremacia branca e dava conselhos a aspirantes a radicais, ainda com o nome de “Norman Spear”.
Nazzaro nasceu em New Jersey e estudou numa escola católica antes de ir para a universidade. Cinco anos depois de ter concluído o Ensino Superior, realizou um estágio numa fundação ligada à área da Defesa. Alguns anos mais tarde chegaria a uma empresa especializada na “liderança, controlo e inteligência para missões de segurança interna e contraterrorismo”, descrevem vários portais especializados no tema. A experiência no setor levá-lo-ia a trabalhar no Iraque e no Afeganistão, onde se terá exponenciado a radicalização do norte-americano.
O líder do grupo neonazi viveu em vários estados norte-americanos — incluindo num apartamento de mais de meio milhão de dólares em Nova Iorque — antes de se mudar, em 2017, para a Rússia, onde ainda viverá com a mulher, de nacionalidade russa, e as duas filhas, revelou o Guardian.
Antes de fundar o The Base, Nazzaro tornou-se presença assídua em vários podcasts, onde começava a defender publicamente os seus ideais. “Dada a história dos movimentos separatistas no passado e em qualquer lugar do mundo, inevitavelmente, a nação anfitriã vai fazer tudo ao seu alcance, incluindo o uso da força, para travá-lo. A resposta para isso é (…) a guerra de guerrilha”, disse em 2017.
Quando começou a ser divulgado em diferentes redes sociais, o grupo perguntava aos recrutas pela sua experiência militar, privilegiando o treino com as forças armadas e o conhecimento em ciência e engenharia. Nazzaro irritava-se com outros grupos supremacistas brancos que se concentravam na criação de propaganda e descuravam o treino. “Queremos construir um grupo de formadores em todo o país e, eventualmente, se possível, desenvolver alguns cursos de formação”, explicou, noutro podcast, em 2018.
Apesar do foco no treino, o grupo usufruía das redes sociais para recrutar cada vez mais pessoas. Nos chats, sobretudo em aplicações encriptadas, vários membros trocavam ideias e partilhavam documentos que originaram a criação de uma biblioteca digital recheada de conteúdos a defender a supremacia branca.
“Esta merda deixa-me motivado”, disse um membro de uma conversa de grupo do movimento em reação a um tiroteio numa sinagoga em Pittsburgh que fez 11 mortos. “Eu sou sempre pela violência, mas quero encontrar-me com pessoas e planear algo”, respondeu outro. “Não tem que ser o oito ou o oitenta. Para já, precisamos de ações discretas que enviem uma mensagem ou contribuam para a aceleração tanto quanto possível”, defendeu Nazzaro.
Apesar de o líder gabar as suas qualidades em matéria de segurança e defesa, enaltecendo a discrição do grupo, as conversas do The Base já tiveram jornalistas e agentes do FBI infiltrados, em operações que, bem antes da levada a cabo pela polícia espanhola, já tinham levado a detenções do movimento aceleracionista.
????Desarticulada la primera célula terrorista de carácter aceleracionista detectada en #España ????????
????♂️Detenidas 3 personas por su presunta pertenencia a ‘’The Base’’ ➡️una organización considerada terrorista en la #UE, #Canadá, #ReinoUnido, #Australia y #NuevaZelanda… pic.twitter.com/rzvhVTQzfc
— Policía Nacional (@policia) December 1, 2025
Em Portugal não há registo da presença do movimento The Base, mas já foram emitidos alertas sobre a corrente aceleracionista. O Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa alertou para esta realidade em 2019.
“Entende o CFSIRP, atento a uma tendência externa que vai ganhando evidência, destacar agora a criminalidade protagonizada por grupos extremistas conotados, seja com a insurreição organizada, seja com posturas identitárias e mesmo de supremacia branca, enquadradas por uma congeminação — radicalizada, torneada aos seus objetivos e convertida em slogan — do chamado aceleracionismo”, lê-se no parecer.
Cinco anos depois de ter assinado este documento, Abílio Morgado, então presidente do Conselho, assume apenas que este aumento nos últimos anos era “expectável” e reflexo da forma como, atualmente, se organiza a sociedade. O advogado alerta para o facto de os extremistas que integram estes movimentos serem “pessoas que estão ao nosso lado” no quotidiano.
Mas em que consiste, afinal, o aceleracionismo? Pathé Duarte, perito em temas de radicalização e extremismos, explica que tem uma natureza “difusa” e “ambígua” e que não se pode encaixar nas definições clássicas do extremismo, sendo característico em movimentos que pretendem criar o caos pela vontade de gerar uma “nova ordem” e não por motivação política ou religiosa, ao contrário do que se verifica no The Base, onde é evidente uma orientação racial.
Direitos Reservados
“O que nós temos hoje em dia é uma nova tendência chamada de extremismo violento nihilista. Com indivíduos que adotam fragmentos, muitas vezes contraditórios e múltiplos, de várias ideologias”, resume ao Observador.
“É o caso do aceleracionismo. Temos uma espécie de ambiguidade em termos ideológicos que está a legitimar uma determinada forma de extremismo violento. Essa ambiguidade é resultado de uma adaptação, por parte de indivíduos e grupos que têm impacto, que juntam fragmentos de várias coisas”. Pathé Duarte cita vários grupos que representam essa “glorificação da violência” e uma “polarização” e “alienação social” em que “a desinformação é permanente”.
Neste campo, o exemplo de Anders Breivik, um dos primeiros exemplos desta corrente, é o mais paradigmático. “Ele tinha coisas maçónicas, neo-templaristas, nacionalistas, islamofóbicas. Havia quem o classificasse de extrema-direita, mas ele tinha ali coisas estranhas, era muito difícil de classificar”.
O especialista reforça que quem se identifica com os movimentos aceleracionistas atua “tendencialmente” de forma individual. Os perpetradores destes ataques, alerta, “são cada vez mais novos e menores”.
O recrutamento de jovens radicalizados é enquadrado na “subcultura online” assente em “teorias da conspiração” que fomentam a “queda da confiança” nas instituições públicas e enfraquece a “coesão social”.
“O aceleracionismo pretende uma transformação da ordem existente para uma ordem nova”, resume Pathé Duarte.