Em 2007, os engenheiros que preparavam o módulo de pouso Phoenix Mars, da Nasa, coletaram amostras do piso da sala de montagem no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Graças a essas amostras (juntamente com testes para traços de DNA), os cientistas anunciaram que, em 2013, haviam identificado e detectado uma nova bactéria – a T. phoenicistanto em Kennedy quanto numa sala limpa da Agência Espacial Europeia localizada na Guiana Francesa, a 4 mil km de distância. 

Foi a primeira vez que um novo micróbio foi encontrado em duas salas limpas distantes.

Primeiro, os cientistas examinaram o genoma da bactéria em busca de pistas sobre como o micróbio havia persistido por tanto tempo em ambientes estéreis tão diferentes. Eles descobriram que ele carregava o gene de uma proteína conhecida como fator promotor de ressuscitação (ou RPF), o qual pode despertar bactérias semelhantes que também possuem o mesmo gene.

Ter esse gene não significa necessariamente que uma bactéria tire proveito dele. Para descobrir, a equipe de Tirumalai privou a T. phoenicis de todos os nutrientes e a desidratou até o ponto de dessecação. Suas células, então, entraram rapidamente em um estado de dormência

Em muitos casos, as bactérias não conseguiram sair da dormência e voltar a crescer quando receberam nutrientes. Mas em outros, as células cresceram em aglomerados em poças ricas de “alimento” – ainda que isso tenha levado vários dias. 

Sua capacidade de entrar em um estado dormente quase indetectável e permanecer assim mesmo quando as condições melhoravam explicava por que as pesquisas demoraram tanto para descobri-las nas salas limpas das espaçonaves. “Mas no momento em que você adiciona o RPF a ela: boom!”, diz Tirumalai. “Ela precisa do RPF para reviver.”

O RPF não é uma característica natural das instalações limpas. Mas várias bactérias o secretam, incluindo uma espécie particularmente comum que vive na pele humana. Isso torna o RPF fácil de encontrar em qualquer outro lugar. “Você tem. Eu tenho”, diz Widger. 

Com o RPF sendo tão onipresente, qualquer T. phoenicis agarrada a uma espaçonave superlimpa não teria nenhuma dificuldade em acordar e se banquetear após um longo período de dormência.

Se esse estágio de dormência seria suficiente para proteger T. phoenicis das condições extremas do Espaço profundo ainda é uma incógnita — embora seja improvável.

O módulo de pouso Phoenix há muito deixou a Terra para procurar água antiga e moléculas orgânicas no Ártico marciano. E as chances de bactérias sobreviverem à superfície marciana são ainda menores. (Quaisquer descobertas futuras de micróbios alienígenas seriam verificadas duas vezes em relação ao censo daqueles das salas limpas).

A questão mais importante são as próprias salas limpas e os humanos que trabalham nelas. A T. phoenicis é um alerta não apenas para as salas limpas das naves espaciais, mas para todas as instalações higienizadas — desde as utilizadas na agricultura e nos laboratórios de produção de alimentos até as utilizadas por empresas farmacêuticas e hospitais. “A dormência não tem implicações apenas para a proteção planetária, mas também para os ambientes humanos”, diz Tirumalai.

Bactérias causadoras de doenças capazes de entrar em um modo furtivo semelhante ao da T. phoenicis em qualquer uma dessas salas supostamente estéreis podem causar estragos. Até o momento, os cientistas não têm conhecimento de nenhum micróbio problemático como esse. Mas, novamente, isso pode ser porque eles não foram capazes de detectá-los. “O desconhecido é mais assustador do que o conhecido”, diz Widger.