Em Portalegre, mais precisamente na Serra de São Mamede, existe uma propriedade com 122 hectares, 22 dos quais de vinha, que dá nome ao Monte da Penha, projeto familiar nas mãos de Francisco Fino. Apesar de já contar com 30 anos, a história é bem mais longa.
Tudo começou no início do século XX, quando Joaquim da Cruz Baptista fundou a icónica Tapada do Chaves. De Joaquim o projeto passou para a filha, Gertrudes Baptista Fino, e, mais tarde, para o neto Francisco Fino, que deu continuidade à tradição e fundou o Monte da Penha. Apesar de ser formado em engenharia têxtil, o saber de Francisco tornou-o um enólogo autodidata, que hoje em dia produz vinhos diferenciadores – seja pelo interior que reflete o terroir de Portalegre, seja pelos rótulos.
Estes são uma homenagem a Verónica Beja Fino, artista e matriarca da família que faleceu há 10 anos. A perda não foi fácil, mas através do legado artístico que deixou tem sido possível honrar o trabalho da mulher de Francisco, que foi um dos pilares do projeto Monte da Penha.
Em entrevista à VERSA, Francisco Fino conta-nos a história dos vinhos produzidos no Monte da Penha, entre eles os novos Harvest, Terroir, Altitude, Gertrudes e Verónica, que já contaram com a colaboração da reconhecida enóloga Susana Esteban. Seja que vinho for, certo é que nenhum passa para o mercado sem ter aprovação de uma das maiores críticas dos vinhos do seu tempo: a Dona Gertrudes que, aos 101 anos, continua a provar os vinhos Monte da Penha.
O Monte da Penha é uma história de família com quase um século. O que mantém dos tempos do seu avô?
Mantemos o essencial do tempo do meu avô, que é o respeito pela terra e as mesmas castas que ele escolheu. Toda a vinha que plantámos em 1987 no Monte da Penha veio com varas da Tapada dos Chaves, mantendo as mesmas castas tanto no tinto, quanto no branco. Por exemplo, a Moreto e a Trincadeira das Pratas, que usávamos para dar acidez natural ao vinho, continuam a ser parte da nossa identidade. No fundo, mantemos essa herança viva na forma como trabalhamos até hoje.
A Verónica teve um papel fundamental no projeto. Foi difícil dar-lhe continuidade depois desta perda?
Não foi fácil, porque a Verónica era realmente um grande pilar do projeto. Decidimos que a melhor forma de honrar a memória dela era continuar o projeto que construímos juntos. Então, é isso que temos feito: dar continuidade a tudo o que ela começou e manter viva essa parte tão importante do Monte da Penha.
O que representa ter as obras de Verónica agora impressas nos rótulos?
Para nós, isso tem um significado enorme, porque é uma forma de manter vivas as memórias e também as suas obras. Além de ajudar a família no Monte da Penha, ela adorava pintar aguarelas, sobretudo de motivos botânicos. Ela fez vários cursos e essa era uma das suas grandes paixões. Então, aproveitar essas obras e trazê-las para os rótulos foi uma maneira de ligar a natureza da Serra de São Mamede aos vinhos, criando uma imagem bonita, distinta, pessoal e emocional.
A Serra de São Mamede dá aos vinhos Monte da Penha um carácter muito particular. Que traços do terroir considera mais marcantes?
A Serra de São Mamede chega a cerca de 1.025 metros no ponto mais alto, o que cria um clima muito particular. É realmente um Alentejo diferente, um Alentejo de altitude. Estamos numa zona de transição entre planícies e montanhas, com verões de noites mais frescas e um mesoclima temperado, que ajuda a manter a qualidade das uvas. Além disso, temos solos mistos com muita pedra: granito, argilo-calcários e até algum xisto. Tudo isso define o nosso terroir único, que é o que procuramos levar para dentro de cada garrafa do Monte da Penha.
Porque são os vinhos Monte da Penha tão diferenciadores?
Desde o início, quisemos utilizar castas típicas da nossa região, ou seja, castas autóctones que refletem o carácter de Portalegre. A única exceção foi a Touriga Nacional, que não é típica daqui, mas como é uma casta de altitude do Dão e do Douro, achámos que iria combinar muito bem com as nossas outras castas e crescer bem no nosso terroir. Com essas características de clima e solo, conseguimos fazer vinhos de grande longevidade, que lançamos depois de alguns anos em garrafa, quando estão prontos a beber, mas ainda com toda a sua frescura e elegância. Daí, neste momento, termos lançado vinhos com 10 anos, como as colheitas tintas de 2015.
A sua mãe, Gertrudes, continua a provar os vinhos aos 101 anos. Tem aprovado todos os vinhos?
Aos 101 anos, continuamos a procurar a opinião da Gertrudes, porque ela é uma excelente provadora e eu valorizo muito o seu paladar. Ela continua a provar todos os vinhos. Agora, por exemplo, dei-lhe a provar o Gertrudes 15 e o 17, que ainda está em estágio, e ela acabou por gostar mais do 15.
O Monte da Penha é um produtor pequeno. É um desafio ou uma vantagem manter essa escala mais artesanal?
Diríamos que o Monte da Penha é hoje um produtor de pequena a média dimensão, o que naturalmente traz alguns desafios, sobretudo porque há muita concorrência neste segmento. Ainda assim, essa dimensão permite-nos manter um acompanhamento muito próximo de todo o processo e uma grande consistência na qualidade.
Este novo portefólio foi precisamente pensado com esse equilíbrio em mente: ter menos referências, começar por engarrafar cerca de 40.000 garrafas entre branco e tinto e posicionar melhor os vinhos em termos de preço. No fundo, queremos crescer de forma sustentável.
Ao projeto juntou-se a enóloga Susana Esteban, uma referência no panorama português. Que impacto espera que esta colaboração traga ao futuro do Monte da Penha?
A Susana tem uma enorme sensibilidade para o terroir de Portalegre e compreende muito bem o que queremos expressar com o Monte da Penha.
Desde que começou a trabalhar connosco, em 2020, trouxe um olhar técnico e inovador, e contribuiu com toda a sua experiência, mas sempre com grande respeito pela nossa história e pelo trabalho que vinha a ser feito. Esta colaboração tem-nos permitido reforçar o estilo que procuramos, vinhos com longevidade, mas também frescos, elegantes e com identidade. Representa também uma nova fase do projeto, mais focada e precisa, mas fiel às nossas origens.
O Monte da Penha tem uma história profundamente enraizada no passado, mas também um olhar no futuro. Que sonhos ou projetos ainda tem por concretizar neste território de Portalegre?
O nosso grande objetivo é continuar a valorizar Portalegre com vinhos de Altitude da Serra de São Mamede e mostrar todo o seu potencial para produzir vinhos frescos com identidade e longevidade.
Queremos crescer de forma sustentável, mantendo as raízes familiares que sempre nos guiaram e continuar a transmitir este legado às próximas gerações. Mais do que aumentar a produção, o nosso foco é aprofundar a ligação à Serra, e apostar sempre na qualidade.
Mas temos outras ambições. Um dos meus sonhos é criar um pequeno hotel ou guest house ligado ao vinho, no Monte da Penha, aproveitando a ruína de uma antiga pedreira.