À primeira vista o Mokka GSE é capaz de enganar, não se percebe logo ao que vem. É, em tudo, relativamente semelhante à versão a gasolina, por dentro e por fora, sendo que as diferenças existem, mas são cuidadas. Talvez a mais vistosa seja o amarelo da pinça de travão na grande roda de 20 polegadas. Ainda assim, o conjunto é discreto.
Foi dado a conhecer no início do ano e cumpre o que estava no papel. Tem muita força (345 Nm de binário) e mais um cavalo-vapor que o previamente anunciado: 281cv. É potente q.b. para garantir diversão em pista e fora dela. Contudo, mais do que a potência para acelerar, sublinhamos a capacidade de parar: o sistema de travagem do Mokka GSE é a característica mais impressionante.
O Mokka GSE é um utilitário de segmento B (crossover), feito para a estrada com alma de rali — a versão de competição homologada dispõe da mesma motorização.
Foi por isso que a Opel escolheu o circuito de Jarama, nos arredores de Madrid, para a apresentação internacional no passado mês de Novembro. E foi lá que, além das habituais actividades de teste do modelo, em pista e em estrada, pudemos experimentar outra: a do lugar do passageiro na versão Mokka Rally.
A motorização é a mesma do GSE, mas o Mokka Rally está homologado para competição
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Opel Mokka Rally
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Calhou-nos na volta o piloto espanhol Alex Español (o outro era o sueco Calle Carlberg), uma curta, mas eficaz demonstração das capacidades do automóvel — devidamente adaptado para a competição. Assistir por dentro e sobretudo sentir este tipo de condução foi também, naturalmente, um exercício de humildade que muita falta faz a muitos (demasiados) condutores.
Rigidez e poder de travagem
O desempenho em estrada é competente para o dia-a-dia. E apenas isso. O Mokka GSE é muito “duro”, sentem-se todas as lombas e buracos. Não se compara, no conforto, às outras versões. Continua a ser um “carro de família”, mas para quem não sofre de dores nas costas.
Por outro lado, essa rigidez estrutural é fundamental para a condução rápida e segura numa estrada com curvas, onde este GSE se mostra no seu ambiente. Basta acelerar um pouco, e o carro segue plantado. A direcção precisa de ajuda a fazer a curva e o poderoso sistema de travagem, a que já tínhamos feito referência, dá a confiança necessária para abrandar quando é preciso. É esta combinação de factores que faz do Mokka GSE uma máquina muito divertida de conduzir.
As jantes de 20 polegadas e o pneu de baixo perfil Michelin Pilot Sport conferem ao Mokka GSE um carácter desportivo. Os discos de travão Alcon de 380mm e as pinças de travão pintadas dão o toque final
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Achámos a suspensão demasiado dura para a utilização do dia-a-dia. Os diferentes modos de condução mudam a resposta do acelerador, mas não alteram o conforto estrutural
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O motor dianteiro permite uma aceleração despachada sem ser fulgurante (5,9 segundos dos 0 aos 100km/h) e a velocidade máxima está limitada electronicamente a 200 km/h no modo Sport; os outros dois modos, Normal e Eco, sofrem redução neste limite.
Dito isto, os bancos do Mokka GSE são muito confortáveis e oferecem um bom apoio lombar para suportar as forças G — cuja medição se pode ver, em tempo real, no painel de instrumentos.
O interior tem as comodidades habituais, com boa insonorização, materiais de boa qualidade, ecrã multifunções de dez polegadas e um sistema de som equilibrado. Seguindo a mais recente operação estética, apresentada no início deste ano, mantém (felizmente) alguns botões físicos, como para o controlo da climatização.
A bateria de 54 kWh permite uma autonomia de até 336 quilómetros (WLTP), anuncia a marca alemã. No nosso teste, em percurso misto e quase sempre em modo Sport, gastámos entre 25 e 30 kWh, o que configura uma autonomia a rondar os 200 quilómetros. Isto de ser “desportivo” tem um preço, seja qual for o tipo de combustível.
O Mokka GSE vai chegar a Portugal no primeiro trimestre de 2026 por 43.300 euros (preço de lançamento), mas as encomendas já podem ser efectuadas.
O interior é sóbrio e moderno, com bons plásticos e utilização de Alcântara
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É uma questão de “vibe”
O principal argumento do Mokka GSE é a (boa) parangona “do rally para a estrada”. Afinal de contas, é quase o mesmo carro. O “OMG!” do anúncio (acrónimo de “Oh my God”, que é o nosso “Ai, meu Deus”) pode ser exagerado para quem já experimentou automóveis eléctricos mais potentes, mas a diversão proporcionada pelo GSE, considerando o segmento onde se compara, é inegável.
Mais do que isso: o Mokka GSE, por uma qualquer razão misteriosa, desenterra da memória as versões mais musculadas dos pequenos citadinos dos anos 1990, de marcas que estão agora sob o chapéu Stellantis: o Peugeot 106 GTi, o Citroën Saxo Cup ou o Opel Corsa GSi — máquinas potentes, leves e divertidas, mas pouco tolerantes ao disparate.
Em modo Sport, o sistema de regeneração é desligado e o “toque” do travão passa a hidráulico. A resposta e eficácia são excelentes
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Os bancos aquecidos são confortáveis e oferecem bom apoio lombar
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Bem entendido que este Mokka é um carro incomparável, começando pelo facto de ser eléctrico, passando pelo tamanho e acabando na tecnologia e segurança, mas o espírito está lá. Também é certo que não tem o mesmo nervo: é silencioso e mais pesado. Mas foi a sensação que nos ficou — e nisto, dos automóveis, as sensações contam muito. E a distância entre uns e outro é tão grande que é louvável que a Opel tenha conseguido trazer à tona esse sentimento. Daí que não seja preciso ser um piloto de ralis para desfrutar dele.