Foto: Divulgação
O que você faz quando nasce e cresce em uma cidade chata pra caramba, onde nada acontece? Se for esperto, volta-se para o mundo, procurando saber o que existe de excitante fora daquela pequena bolha desértica onde, por asar, a cegonha lhe largou. Se tiver talento para a música, melhor. Usa a arte como expressão da sua inquietação geográfica, um apelo desesperado com uma mensagem de “pelamordedeus, me tira daqui!”. Foi o que fez o geniozinho musical Zach Condon, um trompetista de formação que fundou a banda que é um dos grandes destaques da programação do C6 Fest 2026, o Beirut.
Um grupo de um homem só que misturou, com excelência, indie rock com música balcânica, francesa, mexicana e muito mais, desde que não fosse original de Santa Fé, a pacata cidade do Novo México, Estados Unidos, onde nasceu.
A revelação artística de Condon veio quando ele resolveu tirar a poeira dos sapatos e fazer um mochilão pela Europa, aos 16 anos. Lá, ouviu muita música de circo, de fanfarra e de rua. Conheceu a cultura tradicional de vários países. Encontrou-se. Tanto que, no começo da carreira, citava o jazz, a música dos Bálcãs, os filmes de Federico Fellini e a música dos funerais da Sicília como influências principais. É doido ou não?
O interesse pelo que acontecia fora de sua terra natal norteou tudo o que Condon fez na vida desde então. Ao voltar da viagem pela Europa, foi estudar português! Enfurnou-se em casa e gravou, quase sozinho, o primeiro o disco da banda que nomeou “Beirut”, capital do Líbano. Em 2006, lançou seu álbum de estreia, Gulag Orkestar. Uma maluquice que proporciona ao ouvinte uma sensação de passear vendado em uma máquina do tempo. Não se sabe se está pisando no México, no Oriente Médio ou em ruelas da França. Cada música fala sobre um lugar diferente, como Brandemburg, Bratislava, The Bunker ou Postcards From Italy.
Claro que chamou a atenção da descolândia mundial. O projeto foi catalogado como “indie-folk”, embora seja muito mais folk do que indie. Altamente influenciado por David Byrne, outro artista sem fronteiras, Condon mostrava o mundo aos seus conterrâneos.
Seu segundo álbum, The Flying Club Cup (2007) foi escrito e gravado durante uma imersão do artista na cultura francesa, em especial a da época entre 1920 e 1950. Mais um grande disco. Tanta devoção aos ritmos e climas europeus renderam convites para fazer sua primeira turnê pelo velho continente. Finalmente a música levaria o Beirut, fisicamente, para os lugares que seu criador tanto amava.
Cancela tudo!
Alegando estresse, problemas vocais e a falta de condições em fazer um show “humanamente possível”, Zach Condon fugiu da Europa, seu grande terreiro musical, por duas vezes. Em 2006, cancelou as datas europeias. Em 2008, com tudo confirmado, voltou a estragar a festa dos fãs europeus. Preferiu viajar para o México, lançar uma gravadora independente (a Pompeii Records) e fazer um novo disco, dividido em dois lados completamente opostos. Um dedicado às suas recentes experiências mexicanas, chamado March of the Zapotec, e um lado B batizado de Real People Holland, com música eletrônica! Zach não queria, ao que parece, ser compreendido, e só foi fazer sua primeira tour no Velho Continente em 2011.
No Brasil, a história foi parecida. A primeira e única turnê no país aconteceu em 2009, com shows em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Recife, na esteira do sucesso do single Elephant Gun, que integrou a trilha sonora da microssérie da Globo, Capitu, no ano anterior. Depois, a banda teve apresentações marcadas por aqui em 2014 e em 2019, mas canceladas por questões de saúde de seu idealizador. Ou seja, esta será apenas a segunda passagem do grupo por aqui, depois de 17 anos.
E é justamente esse mistério o molde do Beirut. Aos trancos e barrancos, foi lançado mais e mais álbuns, entremeados por pausas na carreira e cachoeiras de genialidade. Sincerão, só caía no estúdio quando tinha algo realmente bom para fazer. Assim foram nascendo seus discos seguintes.
Alguns seguiram contando histórias de suas viagens para fora, e outros sobre suas viagens para dentro, falando sobre derrotas e vitórias pessoais e a celebração da vida. Caso de seus mais recente lançamento, belamente batizado de A Study of Losses (2025) (“um estudo de perdas”, em português). A cada lançamento, o homem foi aglutinando milhas aéreas com autoconhecimento. O último trabalho representa muito disso. Congrega a história do projeto em uma obra só, seguindo europeu, folk, eletrônico e lírico.
Condon não se apresenta sozinho. Desde os primeiros passos com o Beirut, se cercou de colaboradores que se confundem como integrantes fixos, músicos de apoio e camaradas de estúdio. A chamada “configuração clássica” do grupo conta com Nick Petree (bateria/percussão), Paul Collins (contrabaixo), Kyle Resnick (trompete/metais), Ben Lanz (trombone/sousafone/outros metais/percussão) e Aaron Arntz (piano/teclados/sintetizadores). Mas a tripulação muda conforme o tamanho e o destino do barco. Quem sobe ao palco no C6 Fest do 2026 segue como um gostoso mistério.
Fato concreto sobre o próximo show no Brasil é que será, definitivamente, uma viagem.
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