O retrato digital de 2025 compõe-se como um mosaico de inquietações, entusiasmos colectivos e pequenas perplexidades linguísticas. Mais do que um inventário das palavras introduzidas numa caixa de pesquisa, o relatório anual da Google funciona como uma espécie de sismógrafo social: regista abalos, modas e curiosidades que ajudam a perceber o país — o que o move e o que o desconcerta.

O apagão, o futebol e a fé

No topo das pesquisas gerais, convivem o medo e a celebração. O apagão de Abril — um evento raro pela sua escala, capaz de deixar Portugal e Espanha simultaneamente às escuras — provocou um pico de procura por explicações técnicas e instruções práticas. A reacção demonstra até que ponto a dependência da infra-estrutura eléctrica passou a ser uma preocupação quase tão central como a estabilidade financeira ou a saúde pública.

No extremo oposto, o futebol voltou a servir de bússola emocional. O Mundial de Clubes dominou as tendências e devolveu ao país aquela suspensão do quotidiano que acompanha os grandes eventos desportivos. Nada de novo, mas suficientemente expressivo para reforçar uma ideia recorrente: a bola continua a ser o escape preferido de quem vive em Portugal.

No campo religioso, o ano foi particularmente intenso. A morte do Papa Francisco e a eleição do Papa Leão XIV despertaram um interesse maciço, confirmando que o Vaticano conserva um peso cultural que, mesmo num país mais secular, permanece difícil de ignorar. A nível interno, a tragédia do Elevador da Glória foi acompanhada ao minuto, num misto de consternação e procura por esclarecimentos.

A pergunta do ano: o que é, afinal, um “turbossexual”?

Entre as pesquisas iniciadas por “O que é…”, a expressão que mais desconcerto gerou foi “turbossexual”. Popularizada por Filipe La Cerda, a palavra tornou-se viral e desencadeou uma corrida colectiva para perceber se se tratava de uma provocação, uma etiqueta geracional ou apenas um fenómeno efémero de rede social. O tráfego anómalo ilustra bem como o país reage quando linguagem, humor e exposição digital se cruzam.

Ao lado deste novo “enigma”, surgiram também interrogações sobre política e terminologia médica, sinal de que a necessidade de traduzir jargões continua a marcar a relação dos portugueses com a actualidade.

Craques, tutoriais e tecnologia do quotidiano

Nas pesquisas de figuras públicas, o futebol volta a impor-se. Richard Rios liderou o interesse dos utilizadores, seguido de perto por Rodrigo Mora, o que reflecte o magnetismo permanente do mercado de transferências e da promessa de novos talentos.

Mas é na secção dos “como fazer…” que a tecnologia doméstica revela um lado quase antropológico. O persistente “como fazer print screen no PC” mantém-se entre as dúvidas mais procuradas — um clássico da literacia digital que teima em não desaparecer, apesar dos avanços na usabilidade. O relatório destaca ainda tutoriais para “transformar foto em anime”, expressão clara de como a cultura visual asiática e as ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa entraram definitivamente nos hábitos de edição de imagem.

A jardinagem doméstica também marcou presença, com várias pesquisas sobre cuidados a plantas específicas, num regresso à terra que tem oscilado ao ritmo das tendências de bem-estar.

As perdas que marcaram o ano

O ano fica assinalado por perdas que marcaram a agenda mediática — e, por consequência, nas pesquisas. A morte de Diogo Jota, em Julho, aos 28 anos, provocou comoção e enorme volume de procura por informação sobre o acidente e a carreira do jogador.

Entre os nomes mais pesquisados surgem também Ozzy Osbourne, figura maior do rock, e a artista brasileira Preta Gil. Despedidas que, cada uma à sua escala, contribuíram para o tom melancólico com que 2025 encerra.