Bartlomiej Wojtowicz / EPA

Proibidas de falar ucraniano, de falar com as famílias, Ucrânia “não existe”. Centro Regional de Direitos Humanos da Ucrânia fez a revelação no Senado dos EUA. Guerra na Ucrânia é muito mais do que simples geopolítica.
Há crianças ucranianas a serem enviadas à força para a Coreia do Norte pela Rússia.
A revelação foi feita por autoridades ucranianas em pleno Senado dos EUA, onde um padrão sistemático de deportações, doutrinação e instrumentalização de menores em contexto de guerra foi descrito em detalhe.
A jurista do Centro Regional de Direitos Humanos da Ucrânia, Kateryna Rashevska, afirmou perante uma subcomissão do Congresso que Kiev documentou pelo menos dois casos de crianças provenientes de territórios ocupados que foram transferidas para o campo de Songdowon, na Coreia do Norte, a cerca de 9.000 quilómetros das suas casas.
Misha, de 12 anos, da região de Donetsk, e Liza, de 16 anos, de Simferopol, na Crimeia, terão sido expostas a formação ideológica: “foram ensinadas a ‘destruir os militaristas japoneses’ e conheceram veteranos coreanos que, em 1968, atacaram o navio USS Pueblo da Marinha dos EUA, matando e ferindo nove soldados americanos”, afirmou a responsável ucraniana.
O rapto e a deportação de crianças ucranianas por parte da Rússia são temas centrais no contexto da invasão russa, e cuja resolução é tida como fundamental para alcançar um acordo pela paz.
A “restituição de todos os civis detidos e feitos reféns, incluindo crianças”, surge no ponto 24 do mais recente plano de paz de Trump e no plano reconstruido pelos aliados europeus.
E esta semana, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que exige à Rússia o regresso de todas as crianças ucranianas deslocadas à força ou deportadas desde 2014. O texto, apoiado por 91 países, apela ainda ao fim imediato de novas deportações, separações familiares, mudanças de cidadania, adoções e acolhimentos forçados, bem como de qualquer forma de doutrinação ideológica dirigida a menores.
As autoridades ucranianas calculam que mais de 19.500 menores tenham sido levados forçadamente para a Rússia ou para territórios sob controlo russo. Destas, só 1.800 terão sido localizadas e repatriadas. Mas pelo menos 35.000 crianças, com idades entre os 8 meses e os 17 anos, estarão temporária ou permanentemente sob custódia da Rússia, disse, na subcomissão do Congresso, o diretor-executivo do Laboratório de Pesquisa Humanitária de Yale, Nathaniel Raymond.
Muitas são retidas em campos e instituições onde são “reeducadas”: são proibidas de falar ucraniano, as ligações à família são cortadas e é-lhes imposta uma narrativa histórica em que a Ucrânia, enquanto nação e cultura, não existe. Em mais de 210 instalações identificadas, há relatos de treino militar e isolamento total do exterior. Yale só terá conseguido identificar estes campos graças a um erro dos soldados russos: tiravam selfies ao lado das crianças.
É uma acusação constante até vinda do próprio presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, a de que milhares de crianças ucranianas são levadas pela Rússia. A novidade agora é o destino: a nação mais isolada do mundo, uma ditadura hereditária totalitária de que, por cá, apenas se conhecem atrocidades.
As autoridades ucranianas descrevem os raptos como um genocídio. Falam em torturas, espancamentos, reintegrações em “novas famílias” e até de raptos para fins sexuais.
Em junho, Zelenskyy acusou a Rússia de ter confessado o rapto de crianças ucranianas.
“Dissemos-lhes que tinham roubado 20 mil crianças e eles responderam que não eram 20 000 — que no máximo, disseram, eram algumas centenas”, disse o líder ucraniano. Penso que é mais importante não nos fixarmos no número, mas no facto de eles admitirem ter levado crianças. Acreditamos que são milhares, eles dizem que são centenas, mas o que importa é que reconheceram o facto”.
“Amizade eterna”
A forte ligação entre Moscovo e Pyongyang tornou-se evidente desde o início da invasão, há quase quatro anos, mas especialmente evidente ao abrigo do tratado de parceria estratégica assinado com Moscovo em junho de 2024 e, claro, quando se soube que Kim Jong-un enviou, há um ano atrás, cerca de 12.000 militares norte-coreanos para lutar ao lado dos russos, algo que só viria a admitir em abril deste ano.
Em junho do ano passado, o presidente russo, Vladimir Putin, voltou à Coreia do Norte, 24 anos depois, para celebrar uma “amizade eterna” unida contra o Ocidente.
Por sua vez, centenas de soldados russos fizeram o caminho inverso, rumo a Pyongyang, que também terá recebido de Moscovo, em troca de mísseis de longo alcance, mísseis antiaéreos e “assistência económica diversificada”.
O presidente russo, Vladimir Putin, tem inclusive vindo a reforçar que quer a Coreia do Norte envolvida nas negociações de paz, além de todos os países dos BRICS.