A Associação Nacional de Farmácias (ANF) admitiu esta sexta-feira dificuldades na vacinação contra a gripe de pessoas que não integram os grupos elegíveis, tendo em conta a falta de vacinas nos laboratórios para o chamado contingente privado.

“Existem constrangimentos na aquisição de vacinas junto dos distribuidores para pessoas que pretendem vacinar-se, mediante receita médica, fora dos grupos com direito à vacinação gratuita”, adiantou a ANF à agência Lusa.

A associação liderada por Ema Paulino salientou ainda que não se verifica falta de vacinas nas farmácias para as pessoas que integram os grupos elegíveis e que podem ser vacinadas no âmbito da campanha sazonal do Serviço Nacional de Saúde (SNS).


“Até ao momento, a informação de que dispomos indica que os laboratórios já confirmaram não possuir mais vacinas destinadas ao contingente privado”, referiu a ANF.

Segundo os últimos dados da Direcção-Geral da Saúde (DGS), que definiu o objectivo de vacinar 2,5 milhões de pessoas contra a gripe, cerca de 2,3 milhões de vacinas já foram administradas desde Setembro, quando se iniciou a actual campanha sazonal de Outono-Inverno.

A Ordem dos Farmacêuticos (OF) pediu, esta sexta-feira, à DGS e ao Infarmed que tomem medidas para garantir o acesso adequado às vacinas da gripe a quem tem recomendação para tal, mesmo sem pertencer aos grupos de risco.

O apelo da OF surge depois de a ANF ter admitido dificuldades na vacinação contra a gripe de pessoas que não integram os grupos elegíveis, tendo em conta a falta de vacinas no chamado contingente privado.

Em comunicado, a OF refere que remeteu uma comunicação formal à DGS e ao Infarmed a manifestar preocupação com estas dificuldades com as vacinas do contingente privado, que podem afectar cidadãos com recomendação de vacinação que não se enquadram nos critérios de gratuitidade previstos, mas queiram comprar a vacina na farmácia, através de prescrição médica.

“Independentemente do contingente, deve ser assegurada a vacinação das pessoas para as quais existe recomendação ou prescrição médica”, sublinha a OF, que manifesta “total disponibilidade” para colaborar com as autoridades.

Justifica ainda a pressão no stock de vacinas do contingente privado disponíveis nas farmácias comunitárias com o aumento da procura associado à descida das temperaturas e às informações divulgadas sobre uma nova variante do vírus da gripe.

A cobertura vacinal da população com mais de 60 anos está nos 60,7%, sendo mais elevada nos idosos com 85 ou mais anos (83,1%).

Esta semana, a directora-geral da Saúde, Rita Sá Machado, manifestou-se satisfeita com a resposta dos portugueses ao apelo das autoridades para a vacinação contra a gripe e com o aumento da adesão nos profissionais de saúde.

A campanha de vacinação sazonal Outono-Inverno 2025/2026 decorre até 30 de Abril de 2026 em unidades de saúde do SNS e em 2500 farmácias comunitárias.

Gripe chegou e está em crescendo

Portugal entrou em fase epidémica de gripe com tendência crescente, registando um aumento de casos confirmados, incluindo internamentos em cuidados intensivos, alertou esta sexta-feira o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa).

“Os dados relativos à actividade gripal nesta época de 2025-26 (…) mostraram que na semana 48, que se iniciou a 24 de Novembro, a actividade gripal é epidémica”, disse à agência Lusa Raquel Guiomar, responsável pelo Laboratório Nacional de Referência para o vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Insa.

Segundo a investigadora, nas últimas duas a três semanas observou-se “um aumento do número de casos confirmados laboratorialmente de infecção pelo vírus da gripe”, e reportados pela Rede de Médicos Sentinela.

O Boletim de Vigilância Epidemiológica da Gripe e outros Vírus Respiratórios do Insa, divulgado esta sexta-feira, revela que, na semana de 24 a 30 de Novembro, se observou um aumento na taxa de incidência das infecções respiratórias agudas graves em comparação com as semanas anteriores, atingindo 10,5 casos por 100.000 habitantes.

Os grupos etários dos zero aos quatro anos e dos 65 ou mais anos foram os que apresentaram o maior aumento, com este último a apresentar o valor mais elevado.

Nesta semana, foram admitidos 82 casos graves de infecção respiratória aguda nas unidades locais de saúde que reportaram dados, tendo sido reportados dez internamentos em unidades de cuidados intensivos (UCI).

“Todos os casos tinham doença crónica subjacente e recomendação para vacinação contra a gripe sazonal, três dos quais estavam vacinados. Nesta semana, a proporção da gripe em UCI foi de 6,0%, tendo aumentado face à semana anterior (1,6%)”, refere o boletim.

Raquel Guiomar explicou que, normalmente, a gravidade da doença pode estar associada ao vírus que está a circular, mas muitas vezes também às condições individuais de cada doente.