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A palestiniana Juman al Qawasmi, filha de um dos fundadores do Hamas e hoje convertida ao Cristianismo, relatou publicamente a sua história de fuga e desilusão com o movimento islamita numa entrevista à televisão norte-americana CBN. Escondida “num lugar desconhecido fora de Gaza”, como refere a própria, Juman descreve um percurso marcado por doutrinação religiosa, violência interna e medo constante, mas também por aquilo que afirma ter sido uma experiência espiritual que mudou a sua vida.
Criada no Qatar, Juman conta que nasceu num ambiente de radicalismo. “O meu pai e a minha mãe educaram-me para odiar Israel, os judeus, os cristãos e até os muçulmanos que não pertenciam ao Hamas”, afirmou, explicando que, nas escolas islâmicas que frequentou, aprendeu que o Corão “ordenava a morte dos judeus“.
Ainda jovem, Juman foi entregue em casamento a um dirigente do Hamas, tendo-se mudado para a Faixa de Gaza em 2002, onde diz ter descoberto um quotidiano muito diferente da retórica usada pelo movimento. “Eles prometeram igualdade a todos, mas nada aconteceu. Pioraram Gaza e começaram a matar palestinianos. Se não pertencesses ao Hamas, devias ter medo“, relatou.
A violência dentro da própria comunidade é, para Juman, uma das características mais marcantes do poder instalado no enclave. Num dos episódios que contou, descreve a noite em que as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa) alertaram o seu então marido para evacuar a casa dos vizinhos, que seria alvo de um ataque. “Pediram-lhe para avisar. E ele disse: ‘Não há ninguém em casa’. Israel estava preocupado com civis. E naquela noite bombardearam a casa. Senti que ia morrer em breve. Chorei muito“, confessou a palestiniana.
“A minha avó dizia que viveu com um vizinho judeu em amor e paz. Mas o Hamas começou a causar problemas, começou a atacar Israel com rockets. Foi por isso que Israel começou a bombardear”, afirmou, acrescentando que, no seu entendimento, “os palestinianos viviam em paz antes de o Hamas tomar o poder”.
Outro ponto central do discurso de Juman é o destino da ajuda humanitária: o dinheiro internacional enviado para reconstruir Gaza foi sistematicamente desviado. “Eles construíram túneis. Eu lembro-me do meu ex-marido a dizer: ‘Estamos a construir uma cidade debaixo de outra cidade’. Nunca construíram abrigos para pessoas. Em Gaza não há abrigos. Tudo é sobre os túneis, onde se escondem agora”, acusou, insistindo que na ideia de que os dirigentes do Hamas “só se importam com a sua posição e o seu poder”.
A agora cristã descreveu, ainda, o período em que viveu sob ameaça de bombardeamentos israelitas entre 2012 e 2014 e admite que chegou a questionar a educação religiosa que recebeu da família. “”Nunca estava satisfeita com Alá e achava que Ele também não estava comigo. O Islão nunca te concede paz“, disse. Foi nesse contexto que, em 2014, conta ter tido um sonho decisivo: “Vi Jesus a aproximar-se de mim e a dizer em árabe: ‘Não tenhas medo, és minha filha’. Acordei em paz pela primeira vez. Senti que era amada e que Jesus também ama os muçulmanos”.
Sem contacto prévio com cristãos — “a minha comunidade era 100% muçulmana, eu só ia ao centro islâmico e memorizava o Corão” —, diz ter recorrido à internet para tentar perceber o que significava o nome que ouviu em sonho. “Nunca tinha ouvido Yeshua [palavra hebraica que equivale ao nome Jesus]. No Corão só se fala de Isa. Pesquisei num site egípcio e encontrei a sua vida e o ensinamento de amar os inimigos. Para mim era algo completamente novo e maravilhoso“.
A conversão ao Cristianismo, contou, manteve-se escondida durante vários anos, com medo da punição prevista pela lei islâmica para a apostasia. Hoje, longe de Gaza, mantém a visão crítica da organização fundada pelo pai. “O Hamas é o nosso verdadeiro inimigo. Agora sou uma filha de Deus“, concluiu.