O Presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou esta sexta-feira, durante uma visita oficial à China, que a unidade entre a Europa e os Estados Unidos é fundamental para apoiar a Ucrânia, acrescentando que não existe desconfiança entre os aliados e negando uma notícia do semanário alemão Der Spiegel, que revelou excertos de uma chamada confidencial entre vários líderes europeus e o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, segundo a qual Macron terá dito que Washington poderia trair a Ucrânia.

De acordo com o Der Spiegel, o Presidente francês e o chanceler alemão, Friedrich Merz, manifestaram fortes reservas sobre a estratégia diplomática da Administração Trump e alertaram para a possibilidade de Washington pressionar Kiev para concessões territoriais à Rússia. Dois participantes da conversa privada confirmaram ao semanário alemão que as citações eram fielmente transcritas. Paris, porém, desmentiu.

Macron rejeitou por completo o conteúdo reportado. “Nego tudo”, afirmou esta sexta-feira aos jornalistas, frisando repetidamente que “não há desconfiança” entre europeus e norte-americanos e que a “unidade é essencial” para apoiar a Ucrânia. O chefe de Estado acrescentou que “não existe um cenário em que uma paz duradoura na Ucrânia seja alcançada sem esforços conjuntos entre europeus, americanos, canadianos, australianos e japoneses”.

A chamada citada pelo Spiegel ocorreu na segunda-feira, no dia em que Macron recebeu Zelensky no Palácio do Eliseu. O encontrou surgiu após a apresentação, no mês passado, de um plano de paz de 28 pontos, proposto pela Administração Trump, que desagradou profundamente a Kiev e aos aliados europeus, por ser visto como extremamente alinhado com as exigências de Moscovo. Esse plano levou às negociações multilaterais de 23 de Novembro, em Genebra, cujo resultado foi uma versão reduzida de 19 pontos – ainda assim rejeitada pela Rússia, que mantém exigências consideradas inaceitáveis pelos ucranianos, incluindo a renúncia à adesão à NATO e a cedência de vastas áreas ocupadas.


Segundo o Der Spiegel, o resumo em inglês da chamada inclui uma advertência directa de Macron a Zelensky sobre o “grande perigo” representado pela actual fase das negociações e sobre a possibilidade de Washington “trair a Ucrânia em termos territoriais”. Merz terá reforçado a preocupação, dizendo a Zelensky que os esforços diplomáticos de enviados de Trump – nomeadamente Steve Witkoff e Jared Kushner, que estiveram cinco horas reunidos com Vladimir Putin no Kremlin esta semana – mostravam que “estão a brincar connosco e consigo”.

As suspeitas sobre o rumo das conversações coincidem com um momento de fragilidade financeira para a Ucrânia. A UE tenta fechar um novo esquema de apoio orçamental de cerca de 90 mil milhões de euros, destinado a manter Kiev operacional em 2026 e 2027. Merz vai reunir-se de emergência, num jantar esta sexta-feira, com Ursula von der Leyen e com o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, que se opõe à utilização de activos russos congelados para financiar o pacote.

Von der Leyen propôs duas vias: empréstimos emitidos com base no orçamento europeu ou um instrumento financiado por activos russos imobilizados na Bélgica, que seriam posteriormente reembolsados com reparações pós-guerra. De Wever insiste que confiscar bens de outro Estado “nunca foi feito. Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, não confiscámos o dinheiro da Alemanha.”

Macron insiste que as divergências relatadas não correspondem à realidade. Mas a divulgação da chamada ameaça reabrir tensões latentes entre aliados, num momento em que Trump, cuja influência é decisiva para qualquer contacto com Putin, permanece sensível a sinais de desconfiança europeia. A diplomacia prossegue em paralelo à intensificação dos combates; e à crescente pressão para que a Ucrânia aceite concessões que ainda não está disposta a admitir.

No terreno, a guerra continua a moldar o contexto das negociações. Ataques russos mataram um rapaz de 12 anos no centro da Ucrânia na noite de quinta-feira, enquanto Kiev terá atingido um porto e uma refinaria de petróleo na Rússia. Moscovo reafirmou, no mesmo dia, que pretende anexar a totalidade do Donbass “pela força ou por negociações”, mantendo intactas todas as exigências territoriais e militares.

Texto editado por Paulo Narigão Reis