O arquiteto norte-americano Frank O. Gehry morreu esta sexta-feira aos 96 anos. A notícia foi adiantada pelo The New York Times, que cita a chefe de gabinete do seu atelier, Meaghan Lloyd.
Gehry morreu na sua residência em Santa Monica, no estado da Califórnia, sabendo-se que tinha sofrido recentemente de doença respiratória. A sua casa é apenas um de inúmeros exemplos do seu estilo arquitetónico inconfundível, presente em obras um pouco por todo o mundo, como o Museu Guggenheim de Bilbau, o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles, a Casa Dançante em Praga ou a Fundação Louis Vuitton, em Paris.
Em 2010, a revista Vanity Fair reuniu um painel de especialistas que considerou o museu de Bilbau como a obra arquitetónica mais importante desde 1980. O seu colega Philip Johnson considerou a estrutura “o maior edifício do nosso tempo” e Gehry “o maior arquiteto que temos”.
Gehry foi distinguido com mais de uma centena de prémios, entre os quais o Pritzker (1989), o Praemium Imperiale do Japão (1992), o Frederick Kiesler, da Áustria (1998) e o Prémio Príncipe das Astúrias das Artes, de Espanha (2014), além da Medalha de Ouro do American Institute of Architects (1999).
Frank Owen Gehry nasceu em 1929, em Toronto, Canadá, mas tornou-se um cidadão norte-americano em 1947, depois de se mudar com os pais para Los Angeles, ainda na adolescência.
Estudou em Harvard, formou-se em Arquitetura na Califórnia e trabalhou no estúdio de Victor Gruen, antes de iniciar o percurso em nome próprio.
Depois de ter trabalhado com outros arquitectos, como Victor Gruen, pioneiro dos centros comerciais, nos Estados Unidos, Gehry optou por abrir um pequeno gabinete em nome próprio, em Santa Mónica, Califórnia, que viria a transformar-se no grande atelier Frank O. Gehry & Associates, atual Gehry Partners.
Inicialmente influenciado por Le Corbusier, Gehry começou a afirmar-se na década de 1970 pela dimensão pessoal das suas obras, caracterizadas pelo uso de materiais pouco convencionais, como o titânio com que cobriu o Guggenheim de Bilbau, e por combinações geométricas que se afastavam do padrão retilíneo, “da imobilidade e do racionalismo”, que recusava.
A reforma da sua própria casa em Santa Mónica, em 1978, transformou-se numa atração, ao combinar painéis cor-de-rosa, estruturas de metal ondulado e rede de capoeira, transmitindo a impressão de algo inacabado e instável.
Além das obras já mencionadas, do seu trabalho destacam-se também a Faculdade de Direito de Loyola (1981-84), em Los Angeles, o Museu Aerospacial da Califórnia (1983-84), a sucursal da Livraria Francis Howard Goldwyn (1986), também em Los Angeles, o restaurante Dança dos Peixes, em Kobe, Japão (1987), o Museu de Design da Vitra Furniture Company, em Weil, Alemanha (1989).
Entre as suas obras mais recentes contam-se a sede do DZ Bank, em Berlim, na Alemanha, a expansão do edifício-sede do Facebook, na Califórnia, a sede da InterActiveCorp, em Nova Iorque, e projeto habitacional de 76 andares, no bairro de Chelsea, em Manhattan, inaugurado em 2011.
Em 2011, Gehry regressou como professor à Universidade do Sul da Califórnia, onde se formara, depois de ter ensinado nas universidades de Yale e de Columbia.
Embora gostasse de desenhar e construir cidades em miniatura quando era criança, como hoje recorda o Los Angeles Daily News, Gehry contava que só aos 20 anos considerou a possibilidade de seguir a carreira de arquitetura, depois de um professor de cerâmica ter reconhecido o seu talento: “Foi como se fosse a primeira coisa na minha vida em que me saí bem”.
O jornal The New York Times define-o hoje como “o titã da arquitetura”. O Los Angeles Times considera-o o mais famoso e conhecido arquiteto norte-americano, depois de Frank Lloyd Wright (1867-1959), o criador do Museu Guggenheim, em Nova Iorque.
Em 2003, o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Pedro Santana Lopes, convidou Frank Gehry a desenvolver um projeto para o Parque Mayer, na capital portuguesa, que não foi concretizado.
Segundo foi noticiado seis anos depois, a autarquia chegou a pagar 2,9 milhões de euros ao arquiteto através da EPUL (Empresa Municipal de Urbanização de Lisboa) para elaborar um projeto de requalificação, mas quando António Costa subiu à liderança do município, colocou essa iniciativa de parte e abriu um concurso, ganho por Aires Mateus.
A versão inicial desse projeto incluía um casino, quatro salas de teatro, um clube de jazz, um museu da moda, uma mediateca, dois edifícios para habitação, um hotel e zonas comerciais. A proposta previa um edifício principal, em pleno Parque Mayer, com duas salas de espectáculos – a maior, com capacidade de 800 a mil pessoas, previa uma sala interior e um anfiteatro ao ar livre, na fronteira com o Jardim Botânico.
Em declarações a jornalistas portugueses, nesse ano de 2003, Frank Gehry explicou que não queria fazer “uma reconstrução histórica”, mas sim transformar o Parque Mayer num “espaço moderno do século XXI” de maneira a que parecesse “que esteve sempre ali”.
Gehry regressou a Portugal, em 2014, para apresentar na Guarda outro projeto de um hotel de cinco estrelas e de um museu, no contexto de um complexo turístico, previsto para a zona de fronteira entre os concelhos da Guarda e de Belmonte.
Em 2007, o arquiteto desenhou o cenário para o concerto de Mariza no Walt Disney Concert Hall, que três anos mais tarde acompanhou a fadista na digressão de apresentação do seu álbum “Fado Tradicional”.
Gehry idealizou então uma taberna, tal como a concebia, num beco de Lisboa, com o objetivo de realçar e apoiar Mariza na sua atuação em Los Angeles, como o arquiteto então declarou à Associated Press.
“Não vai ser uma decoração Frank Gehry. Não a vão reconhecer”, disse na altura à agência norte-americana de notícias, sublinhando o intimismo do cenário.