Achas que o teu gato tem “mau feitio”? Pode ser que seja só “uma resposta comportamental que espelha um estado de sofrimento mental”, explica João Pedro Monteiro, veterinário especializado em comportamento animal e professor na Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU).
Tal como os humanos, os felinos podem sofrer de problemas de saúde mental. O professor explica que os problemas mais comuns incluem “a ansiedade, medos, problemas sociais, e compulsividade” e garante que frequentemente os diagnósticos são difíceis uma vez que “os gatos – como felinos que são – têm tendência a esconder os sinais de mal-estar, um comportamento que pode ser uma adaptação evolutiva para evitar predadores”.
As patologias em gatos associadas a problemas de saúde mental e emocional estão geralmente associadas a “experiências passadas negativas como más experiências com diferentes pessoas ou ambientes, falhas na socialização, e a estimulação inadequada durante fases sensíveis de desenvolvimento”, afirma João Pedro Monteiro. Além disso, o veterinário explica que “o ambiente doméstico instável, com alterações frequentes ou falta de previsibilidade” pode também provocar medo ou ansiedade. Mas, uma das causas mais frequentes, diz o especialista, são “doenças físicas muitas vezes subvalorizadas e não diagnosticadas”, já que “a dor crónica desencadeia alterações comportamentais”.
Rita Rodrigues, veterinária especialista em comportamento animal, explica que “qualquer alteração no comportamento do gato é um sinal de alerta”, desde mudanças no padrão do sono a passar mais tempo escondido. O bem-estar dos felinos é frequentemente influenciado por trocas na alimentação, perda de um membro na família e obras em casa, diz a especialista.
Além disso, o professor João Monteiro acrescenta que comportamentos como “alterações no apetite, agressividade, medo de certos estímulos (como barulhos ou pessoas ou vocalizações excessivas” podem ser indicativos de problemas psicológicos nos felinos. Também o “comportamento pouco interactivo” e “comportamentos repetitivos, como lamber excessivamente as patas, abdómen ou cauda” não devem ser desvalorizados.
Para evitar que o gato desenvolva patologias associadas ao sofrimento mental é importante “proporcionar ao animal um ambiente onde possa brincar e explorar”, com brinquedos interactivos e lugares onde o gato possa esconder-se, explica João Pedro Monteiro. Distribuir a alimentação ao longo do dia e minimizar as alterações no ambiente podem contribuir para a estabilidade mental dos gatos. Rita Rodrigues explica que é necessário cautela na introdução de um novo animal e, no caso de haver mais do que um gato em casa, “deve haver sempre um recurso extra” (bebedouros, comedouros e caixas de areia).
Os problemas emocionais dos gatos, explica Rita Rodrigues, manifestam-se também na saúde física. As patologias mais associadas ao stress são a Cistite Ideopática Felina, que consiste em dificuldade em urinar e idas frequentes à liteira, a lambedura psicogénica, quando os gatos se lambem excessivamente (causando falhas no pelo e irritações na pele), e alterações no peso que podem levar à obesidade.
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Os especialistas alertam, por isso, para a importância de procurar ajuda veterinária quando o gato demonstra alterações no comportamento, sendo que o tratamento em casos de stress passa por “modificar o ambiente, as interacções, e em alguns casos, medicação”.