Produção industrial continua abaixo do pré-Covid, apenas dois trimestres viram crescimento positivo nos últimos dois anos e as projeções não são as mais animadoras, arriscando prolongar a atual recessão em 2026. Governo não está a fazer o suficiente, acusam os empresários do país.
epa12566341 German Chancellor Friedrich Merz looks on during a meeting of the cabinet at the Chancellery in Berlin, Germany, 03 December 2025. EPA/CLEMENS BILAN
Os avisos vinham de inúmeras vozes e ouviam-se há largos trimestres, mas o mais recente é de peso: a Federação de Indústrias Alemãs (BDI), a maior confederação industrial germânica, vê o motor económico europeu na maior crise desde o pós-guerra e acusa o governo liderado por Friedrich Merz de inação perante o que classificam de “queda livre” da maior economia do bloco. O modelo de crescimento das últimas décadas está esgotado perante o fim da energia barata, a concorrência chinesa e a política tarifária dos EUA e, com a Europa em transformação, a ausência do fulgor alemão faz-se sentir.
A Alemanha atravessa “a crise mais profunda desde a fundação da república federal”, afirmou Peter Leibinger, presidente da BDI, que acusa o governo de Merz de “não responder com a determinação necessária”. Para o representante industrial, o país precisa de “uma inversão de política com prioridades claramente definidas para a competitividade e crescimento”, o que incluiria um conjunto ambicioso de reformas.
Os dados são, de facto, preocupantes. Além de ter registado apenas dois trimestres de crescimento positivos nos últimos dois anos, o consumo privado contribuiu negativamente para a leitura mais recente, quando a economia voltou a estagnar em cadeia, tal como as exportações, outrora o principal motor do crescimento alemão. Mais, a produção industrial está em contração há quatro anos e a BDI projeta nova queda de 2% no próximo ano, deixando o país cada vez mais longe do pico do sector secundário registado antes da pandemia.
As razões desta crise são já amplamente conhecidas. Anos de desinvestimento, uma confiança exagerada num modelo exportador, a concorrência industrial cada vez mais sofisticada vinda da China, o fim da energia barata vinda da Rússia e, por fim, a escalada tarifária dos EUA resultaram no regresso do ‘doente da Europa’, designação que já havia sido usada para a Alemanha no início do século. Ainda assim, o cenário na altura não era tão preocupante, dado que o crescimento entre 1988 e 2005 chegou a 1,2%, bastante acima da atual estagnação.
E “ao debater [a ideia de] ‘crescimento zero’, devemos considerar os trabalhadores industriais que perderam o emprego e o peso que estes anos de estagnação colocaram nos sistemas de segurança social”, escrevem os analistas do banco ING, lembrando a onda de despedimentos que assolou o sector industrial alemão, com grandes nomes como a VW, Bosch ou Thyssenkrupp a não conseguirem evitar os lay-offs. Segundo uma análise do BNP Paribas, o emprego na Alemanha caiu 220 mil postos, com destaque para os sectores industrial e da construção.
Estímulos suficientes?
Perante este cenário, o governo liderado por Friedrich Merz apressou-se a introduzir alterações ao famoso travão da dívida, de forma a estimular a economia, e anunciou um novo fundo para revitalizar a infraestrutura do país, degradada após anos de negligência política. Serão 500 mil milhões de euros ao longo de 12 anos, ou seja, cerca de 11,6% do PIB de 2024, e, para o economista Pedro Brinca, o resultado é incerto.
“A Alemanha precisa de um programa de infraestruturas – e não estamos a falar só de ferrovia e autoestradas, mas também do digital e das novas tecnologias emergentes. […] Os 500 mil milhões são um passo na direção certa, mas não é um valor extraordinário”, argumenta, lembrando que não chega a corresponder a 1% do PIB ao ano.
Destacando que esta medida é “o maior pacote orçamental desde a reunificação” das Alemanhas, o S&P Global projeta que este vá “modelar o crescimento económico europeu no próximo ano”. A análise da instituição destaca que o multiplicador dos gastos calculado por Berlim, de 0,75, é superior ao da média das projeções de outras organizações, mas ressalva que os efeitos macro são ainda largamente incertos.
Juntando o fundo para infraestruturas às medidas para o sector da defesa e aos gastos públicos planeados para os próximos 12 anos, o montante ascende a 1,1 biliões de euros, ou cerca de 25% do PIB alemão e 6% do PIB esperado para a UE este ano. Segundo as estimativas da S&P, os efeitos dever-se-ão sentir sobretudo a partir do próximo ano, com um impacto de 0,5% do PIB em 2026, 0,7% em 2027 e 0,8% em 2028.
De ‘milagre’ ao ‘doente da Europa’
O cenário atualmente é o mais preocupante desde o final da II Guerra Mundial, mas a história económica alemã não tem sido tão fácil como se possa imaginar. A partição após o conflito criou assimetrias claras entre a República Federal (RFA), a oeste, e a República Democrática (RDA), a este, com ambas as economias a atravessarem períodos mais conturbados e uma reunificação que constituiu a única integração até então de dois modelos económicos opostos.
A Alemanha Ocidental, integrada num modelo capitalista e com ligações fortes à Europa Ocidental e aos EUA, beneficiou do plano Marshall, que permitiu uma recuperação assente essencialmente na indústria. Foi aqui que surgiu o ‘milagre económico alemão’, com taxas de crescimento da produção industrial de 25% e 18% em 1950 e 1951, respetivamente.
No entanto, os gastos públicos elevados levaram a uma subida na inflação e em 1966 a ideia de um milagre perdeu-se, dado o disparo no desemprego (que, ainda assim, chegou apenas a 3,2%) e um abrandamento no crescimento até valores negativos em 1967. Após este período formou-se um governo de coligação que viu a economia da Alemanha Ocidental voltar a ganhar fôlego e chegar a 7,4% de crescimento dois anos depois, em 1969.
Do outro lado da fronteira, na RDA, a situação foi menos positiva, com largos períodos de estagnação económica. Após anos sem crescimento na década de 70, o governo acumulou dívida que levou a uma crise nos anos 80, um cenário que se foi agravando nos anos seguintes e que culminou com o colapso económico no final da década.
Com a reunificação, dois modelos distintos tiveram de ser integrados, bem como populações com níveis bastante díspares de riqueza e produtividade. No lado oriental, a produção industrial caiu a pique, recuando 73% entre 1989 e 1992, e 80% da população ativa perdeu o seu emprego temporária ou permanentemente. Precisamente em 1992, o crescimento em ambos os territórios anteriormente separados estava a desiludir: a RFA viu o indicador cair de 4,2% no ano anterior para apenas 0,9%, enquanto a RDA registou um avanço de 6,1%, bastante abaixo dos 7% a 10% previstos aquando da reunificação.
Como resultado, 1993 registou uma recessão de 1,2%, mas foi de pouca dura, regressando o país aos crescimentos positivos no ano seguinte. Ainda assim, muitas assimetrias entre Ocidente e Oriente permanecem até hoje, com mais desemprego na antiga RDA e um tecido de pequenas e médias empresas mais frágeis.