No dia 5 de dezembro de 1914 nasceu, em Prati di Castello, Roma, aquela que se tornaria uma das figuras mais revolucionárias da arquitetura brasileira: Achillina di Enrico Bo Bardi, mais conhecida como Lina Bo Bardi. Criada em um ambiente familiar que estimulava a arte, aprendeu com o pai, que era engenheiro, construtor e pintor, a desenhar e a traduzir formas e sensações com guache e aquarela.
A italiana concluiu, em 1933, o Liceu Artístico e, poucos anos depois, tornou-se uma das raras mulheres a ingressar na tradicional Facoltà di Architettura da Università degli Studi di Roma. Aos 25 anos, formada arquiteta, apresentou um projeto ousado para a época: o chamado “Núcleo Assistencial da Maternidade e da Infância”, que contava com estrutura de concreto armado e vidro aparente.
Na década de 1940, em plena Segunda Guerra, Lina se mudou para Milão, onde formou um estúdio com Carlo Pagani e colaborou com Gio Ponti. Trabalhou intensamente como ilustradora e editora, participando de revistas que buscavam refletir sobre a vida cotidiana em meio à devastação. Após o fim da guerra, conheceu Pietro Maria Bardi, crítico de arte e intelectual com quem se casaria em 1946.
O mesmo ano marcou uma virada decisiva: Lina e Pietro embarcaram para o Brasil, atraídos pela vitalidade artística do país e convidados por Assis Chateaubriand para fundar o Museu de Arte de São Paulo. Em São Paulo, Lina rapidamente mergulhou em diferentes frentes de criação: projetou móveis, dirigiu revistas, fundou o Estúdio de Arte Palma e, em 1951, concluiu seu primeiro grande marco arquitetônico — a Casa de Vidro, residência do casal e hoje um símbolo da moderna arquitetura brasileira. No mesmo ano naturalizou-se brasileira.
Tempos mais tarde, na virada para os anos 1960, fundou, em Salvador, o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) e projetou o restauro do Solar do Unhão. De volta a São Paulo, enfrentou os anos da ditadura dedicando-se sobretudo à cenografia, aprofundando sua relação com o teatro e o cinema.
Entre final dos anos 1970 e início da década de 1980, Lina projetou o centro de lazer do SESC Pompeia. Em 1982, a artista realizou novas instalações para o Museu de Arte Moderna do Parque Ibirapuera e, em 1984, elaborou os primeiros desenhos para o projeto da sede do Teatro Oficina. Dois anos mais tarde, foi chamada pela Prefeitura de Salvador para elaborar um projeto de recuperação do centro histórico da cidade. No mesmo período, desenvolveu outras intervenções importantes, entre elas o Teatro e Fundação Gregório de Mattos, a Casa do Benin, no Pelourinho, a revitalização das encostas da Ladeira da Misericórdia e a Casa do Olodum.
Em 1990, deu início à restauração do edifício do Teatro Oficina — reinaugurado em 1994 — e começou aquele que seria seu último trabalho: o projeto da nova sede do Palácio das Indústrias para a Prefeitura de São Paulo. Ainda naquele ano, ao lado de Pietro Maria Bardi, fundou o Instituto Quadrante, atualmente Instituto Bardi/Casa de Vidro, criado para desenvolver, de forma independente ou em parceria com o MASP e outras instituições nacionais e internacionais, atividades culturais e pesquisas voltadas à história da arte e da arquitetura. Lina integrou a direção desde o início, ocupando a vice-presidência até sua morte, em 1992.
Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.