Agências de espionagem estrangeiras estão actualmente focadas em infiltrar-se em universidades e empresas ocidentais, afirma o ex-director do Serviço de Inteligência de Segurança do Canadá (CSIS), salientando que o foco “passou de estar centrado na informação governamental” e estende-se agora ao “sector privado, à inovação na investigação e às universidades”, referiu David Vigneault em entrevista ao jornal britânico The Guardian, publicada neste domingo.
Diz-se conhecedor do “espectro completo” das possíveis abordagens por parte de serviços de inteligência estrangeiros, desde ciberataques ao uso de informadores infiltrados em programas universitários.
Nas universidades, os informadores são recrutados por potências estrangeiras por ingenuidade, ideologia ou ganância. Uma realidade que diz justificar a existência de avaliações de segurança nacional aos referidos programas universitários, sempre que sejam financiados pelo governo e tratem áreas científicas sensíveis.
Criticado por alguns investigadores, que consideram a sua posição demasiado restritiva, o perito riposta: “Não podem imaginar que trabalham isolados. Não vivem numa ilha a fazer investigação pura para o bem da humanidade.”
No que toca à problemática do roubo de informação confidencial, defende que toda a sociedade, e não apenas os políticos, deve unir esforços para combater a ameaça.
China como principal ameaça
David Vigneault apontou a China como actual principal ameaça, afirmando que Pequim utiliza uma combinação de ataques informáticos, agentes infiltrados e recrutamento de pessoal universitário para obter informação sobre tecnologias sensíveis produzidas no Ocidente.
O regime de Xi Jinping decidiu investir em “capacidades assimétricas” para roubar o máximo de conhecimento técnico possível.
“O sistema está montado para, de forma muito sistemática, compreender os fins militares que essas inovações podem ter e depois colocá-las em produção para o Exército de Libertação Popular”, observou Vigneault, à margem de uma conferência sobre o tema, em Haia, esta semana.
Segundo o especialista, a liderança chinesa tem seguido um longo programa de modernização militar, depois de ter ficado horrorizada com a facilidade com que o Exército norte-americano tomou controlo do Iraque em 2003.
Acrescenta que, alheada de contratempos democráticos, como “ciclos eleitorais de quatro anos, [a China] tem a capacidade de abordar o assunto numa perspectiva de muito longo prazo”.
O CSIS concluiu que a China interferiu em duas eleições no Canadá, em 2019 e 2021. Na altura, as conclusões desencadearam um escândalo político sobre se a agência tinha ou não alertado devidamente os responsáveis políticos.
Rússia e o fracasso europeu na Ucrânia
Os sete anos que passou à frente do CSIS foram marcados por uma evolução do foco principal da agência, que derivou do terrorismo para a política internacional entre grandes potências.
O ex-director esteve no cargo durante o período que antecedeu o início da guerra na Ucrânia, em 2022, altura em que o Canadá teve acesso a praticamente toda a informação recolhida pelas agências dos EUA e do Reino Unido sobre os planos de Vladimir Putin. Vigneault descreveu a informação recolhida como “excepcional” e disse que, semanas antes de a invasão se confirmar, restavam já poucas dúvidas de que viria a concretizar-se.
Sugeriu ainda que, para além de não disporem do mesmo nível de detalhe na informação, o fracasso dos serviços de segurança europeus em antecipar o ataque se deveu, pelo menos em parte, à dependência do petróleo e gás russos.
O receio do “custo político ou económico de tentar diversificar antes de uma invasão” tornava mais fácil e apelativo acreditar que a invasão não aconteceria.
“Vimos isso com a Alemanha, que mais tarde teve de reorientar grande parte do seu sector energético”, afirmou, acrescentando que as contrapartidas políticas e económicas “têm impacto na tomada de decisão e na forma como se avalia a informação.”
Quanto à retórica hostil de Donald Trump em relação ao Canadá, sobretudo após o início do seu segundo mandato como Presidente dos EUA, Vigneault é adepto do pragmatismo. Diz ser necessário identificar áreas em que a cooperação entre os dois países é crucial e “desenvolver capacidades soberanas” que permitam não depender de um aliado cada vez mais errático.
“No mundo em que vivemos, e no mundo em que prevemos viver no futuro, os dados [pessoais] vão ser absolutamente críticos. Então, como garantimos que temos um nível de soberania sobre os nossos próprios dados para proteger os cidadãos e a segurança nacional?”, questiona Vigneault, antes de esclarecer que a solução passará por “desenvolver capacidades soberanas de cloud [computação em nuvem]”, para que seja possível “controlar a informação e não ficar à mercê de uma empresa que possa ter obrigações legais de partilhar esta informação com os EUA.”