Geraldo Vespaziano Puntoni, o Vespa, como era conhecido, nasceu em Brotas, no interior paulista, em 1932. Depois de perder o pai em 1935, passou a viver na casa do seu avô, com a mãe e duas irmãs. Aos 14 anos, completou o primário e se mudou sozinho para São Paulo para continuar os estudos.

Em 1953, ingressou na Faculdade de Urbanismo e Arquitetura da USP, onde se formou arquiteto e passou a trabalhar para o Departamento de Obras Públicas, onde permaneceu como servidor até se aposentar. Também foi professor na mesma FAU-USP até 2002, e nos últimos anos, da Faap e Escola da Cidade, da qual foi um dos fundadores e grande entusiasta.

Em março de 2025, perdeu sua grande companheira, Tiche Puntoni, pianista e musicista com quem viveu por 62 anos. Foi exatamente quando começou a perder a memória em função de uma hidrocefalia. Num domingo de sol, dia 30 de novembro, ele também se foi. Tinha 93 anos.

Era um artista, um humanista. Arquiteto e educador, definiu-se, também, como militante pela igualdade —social, racial e de gênero. Enfrentou, como muitos de sua geração, a brutalidade da ditadura.

Como educador, se definia como um aprendiz persistente; como artista, um apaixonado pela expressão popular. Quando recebeu em 2013 o título de professor emérito da Escola da Cidade, afirmou: “Temos de ser ousados, para transformar a nossa realidade e o nosso mundo”.

Em 2 de abril de 1979, esteve no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) para prestar esclarecimentos “sobre sua vida de universitário”. É o que diz seu prontuário, guardado no Arquivo do Estado de São Paulo. O documento mostra como ele procurou se esquivar das perguntas sobre colegas e amigos; sem saber, provavelmente, o quanto a polícia política já sabia da sua militância como quadro da base dos arquitetos do PCB, como presidente do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo. Não foi preso.

Na ficha do Dops, é possível ver as marcas dos seus dedos, um registro exato do gesto intimidado de quem, no momento, não tinha garantia dos seus direitos. No canto direito superior, sua assinatura, um rabisco rápido, traço seguro, que denota a técnica do professor de desenho.

O documento é apenas um traço que marca sua presença no mundo. Permaneceram diversas outras pistas da sua existência como a casa no Morumbi, que projetou e construiu nos anos 1970 (e que serviu para inúmeras festas de amigos da família), a coleção de 400 lamparinas que formou ao longo do seu trabalho percorrendo obras no interior do estado, uma grande biblioteca e as esculturas que fazia com jornal e fita crepe, conformando figuras impensáveis e dando vida a matéria inerte.

Até o fim seguiu transformando a “sucata”, como gostava de definir, em obra de arte.

Deixa, além dos dois filhos (ambos professores da USP) e as noras Malu e Fernanda, os netos João Pedro, Matias, Beatriz, Antônio e Bruno, que serão condutores da sua presença entre nós.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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